Os tipos de rima são: interna (o fim de um verso rima com palavra no interior de outro verso), externa (ocorre entre palavras no final dos versos), cruzada (esquema ABAB), emparelhada (esquema AABB), interpolada (esquema ABBA), misturada (sem esquema fixo), pobre (ocorre entre termos de mesma classe gramatical), rica (ocorre entre termos de classes gramaticais diferentes).
Existem também as rimas: aguda (ocorre entre palavras oxítonas ou monossílabos tônicos), grave (ocorre entre paroxítonas), esdrúxula (ocorre entre proparoxítonas), perfeita (a terminação dos termos que rimam é igual), toante (a rima ocorre entre vogais tônicas), imperfeita (a terminação dos termos que rimam é apenas semelhante), rara (ocorre entre termos difíceis de rimar), preciosa (rima artificial).
Leia também: Qual a diferença entre poesia e poema?
Tópicos deste artigo
- 1 - Resumo sobre tipos de rimas
- 2 - Quais são os tipos de rima?
- 3 - Exercícios resolvidos sobre tipos de rima
Resumo sobre tipos de rimas
- Existem os seguintes tipos de rima:
- interna: uma palavra no fim de um verso rima com outra no interior de outro verso;
- externa: as palavras que rimam estão no final dos versos;
- cruzada ou alternada: esquema ABAB (1o verso rima com o terceiro, 2o verso rima com o quarto);
- emparelhada: esquema AABB (1o verso rima com o segundo, 3o verso rima com o quarto);
- interpolada: esquema ABBA (1o verso rima com o quarto);
- misturada: sem esquema fixo (ABCDBE...);
- aguda: as palavras que rimam são oxítonas ou monossílabos tônicos (cantor/ amor);
- grave: as palavras que rimam são paroxítonas (sozinho/ caminho);
- esdrúxula: as palavras que rimam são proparoxítonas (âmago/ relâmpago);
- consoante ou perfeita: a terminação dos termos que rimam é igual (pureza/ tristeza);
- toante: a rima ocorre entre vogais tônicas (lume/ nuvem);
- imperfeita: a terminação dos termos que rimam é apenas semelhante (mariposa/ coisa);
- pobre: os termos que rimam são da mesma classe gramatical (gato/ pato);
- rica: os termos que rimam são de classes gramaticais diferentes (vento/ sedento).
- rara: ocorre entre termos difíceis de rimar (cinza/ ranzinza);
- preciosa: rima artificial, forçada (estrela/ obtê-la).
Quais são os tipos de rima?
-
Rima interna
Ocorre entre uma palavra localizada no final de um verso e outra palavra localizada no interior de outro verso:
Aventura meridiana
Era na estiva quadra! Intenso meio dia
Pedia um respirar;
No meio do meu leito
Me deito a descansar.
Janela entre-fechada, esquiva ao sol fogoso,
Repouso ali mantém;
Luz como a de espessura
Escura ao quarto vem;
Penumbra voluptuosa, igual à que abre a esfera
À espera do arrebol;
Ou a que ensombra os ares
Se aos mares baixa o Sol;
[...]
(Ovídio)
Como o poema tem cerca de 12 estrofes, transcrevi apenas as primeiras estrofes. Mas isso foi o suficiente para você perceber as rimas entre palavras no final de um verso e no interior de outro verso.
-
Rima externa
Ocorre entre palavras localizadas no final dos versos:
Guerreira
É a encarnação do mal. Pulsa-lhe o peito
Ermo de amor, deserto de piedade...
Tem o olhar de uma deusa e o altivo aspeito
Das cruentas guerreiras de outra idade.
O lábio ao ríctus do sarcasmo afeito
Crispa-se-lhe num riso de maldade,
Quando, talvez, as pompas, com despeito,
Recorda da perdida majestade.
E assim, com o seio ansioso, o porte erguido,
Corada a face, a ruiva cabeleira
Sobre as amplas espáduas derramada,
Faltam-lhe apenas a sangrenta espada
Inda rubra da guerra derradeira,
E o capacete de metal polido.
(Olavo Bilac)
-
Rima cruzada ou alternada
Apresenta o esquema do tipo ABAB. Por convenção, assinalamos cada verso com as letras do alfabeto para verificar se a rima alterna, pula um verso, como neste poema:
Vesperal
Tardes de ouro para harpas dedilhadas [A]
Por sacras solenidades [B]
De catedrais em pompa, iluminadas [A]
Com rituais majestades. [B]
Tardes para quebrantos e surdinas [C]
E salmos virgens e cantos [D]
De vozes celestiais, de vozes finas [C]
De surdinas e quebrantos... [D]
Quando através de altas vidraçarias [E]
De estilos góticos, graves, [F]
O sol, no poente, abre tapeçarias, [E]
Resplandecendo nas naves... [F]
Tardes augustas, bíblicas, serenas, [G]
Com silêncio de ascetérios [H]
E aromas leves, castos, de açucenas [G]
Nos claros ares sidéreos... [H]
Tardes de campos repousados, quietos, [I]
Nos longes emocionantes... [J]
De rebanhos saudosos, de secretos [I]
Desejos vagos, errantes... [J]
Ó Tardes de Beethoven, de sonatas, [K]
De um sentimento aéreo e velho... [L]
Tardes da antiga limpidez das pratas, [K]
De Epístolas do Evangelho!... [L]
(Cruz e Sousa)
Note que são cruzadas ou alternadas as rimas: ABAB, CDCD, EFEF, GHGH, IJIJ, KLKL. Isso porque a rima alterna, ou seja, há um intervalo (no caso, um verso) entre elas.
-
Rima emparelhada
Apresenta o esquema do tipo AABB. Por convenção, assinalamos cada verso com as letras do alfabeto para verificar se a rima está emparelhada (em dois versos que estão dispostos um após o outro), como neste poema:
Sete poemas portugueses
Vagueio campos noturnos [A]
Muros soturnos [A]
paredes de solidão [B]
sufocam minha canção [B]
A canção repousa o braço [C]
no meu ombro escasso: [C]
firmam‑se no coração [D]
meu passo e minha canção [D]
Me perco em campos noturnos [A]
Rios noturnos [A]
te afogam, desunião, [B]
entre meus pés e a canção [B]
E na relva diuturna [E]
(que voz diurna [E]
cresce cresce do chão?) [D]
rola meu coração [D]
(Ferreira Gullar)
-
Rima interpolada
Apresenta o esquema do tipo ABBA. Por convenção, assinalamos cada verso com as letras do alfabeto para verificar se a rima está interpolada (em versos que estão intercalados por dois outros versos). Esse tipo de rima está neste poema de Luís Vaz de Camões:
Aqueles claros olhos que chorando [A]
ficavam quando deles me partia, [B]
agora que farão? Quem mo diria? [B]
Se porventura estarão em mim cuidando? [A]
Se terão na memória, como ou quando [A]
deles me vim tão longe de alegria? [B]
Ou s’estarão aquele alegre dia [B]
que torne a vê-los, n'alma figurando? [A]
Se contarão as horas e os momentos? [C]
Se acharão num momento muitos anos? [D]
Se falarão co’as aves e c’os ventos? [C]
Oh! bem-aventurados fingimentos, [C]
que, nesta ausência, tão doces enganos [D]
sabeis fazer aos tristes pensamentos! [C]
Nesse poema, a interpolação ocorre com as rimas dos versos do tipo A.
-
Rima misturada
Não possui um esquema fixo. Por convenção, assinalamos cada verso com as letras do alfabeto para verificar se a rima está misturada (sem uma ordem fixa de disposição nos versos), como neste exemplo:
O autorretrato
No retrato que me faço [A]
— traço a traço — [A]
às vezes me pinto nuvem, [B]
às vezes me pinto árvore...
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança... [C]
ou coisas que não existem [B]
mas que um dia existirão...
e, desta lida, em que busco
— pouco a pouco — [D]
minha eterna semelhança, [C]
no final, que restará?
Um desenho de criança... [C]
Corrigido por um louco! [D]
(Mario Quintana)
Note que não há um esquema de rimas fixo, as rimas estão misturadas: AAB--CB--DC-CD (coloquei hifens para indicar versos sem rima).
-
Rima aguda
As palavras que rimam são oxítonas (a sílaba forte é a última) ou monossílabos tônicos (palavras com apenas uma sílaba, mas com sentido completo), como no seguinte poema:
Mudez
Já rumores não há; não há; calou-se
Tudo. Um silêncio deleitoso e morno
Vai-se espalhando em torno
Às folhagens tranquilas do pomar.
Torna-se o vento cada vez mais doce...
Silêncio... Ouve-se apenas o gemido
De um pequenino pássaro perdido
Que inda espaneja as suas asas no ar.
Ouve-me, amiga, este é o Silêncio, o grande
Silêncio, o rei das trevas e da calma,
Em que a nossa triste alma,
Penetrada de mágoas e de dor,
Se dilata, se expande,
E seus segredos íntimos mergulha...
Prolonga-se a mudez: nenhuma bulha;
Já não se ouve o mínimo rumor.
Esta é a mudez, esta é a mudez que fala
(Não aos ouvidos, não, porque os ouvidos
Não conseguem ouvir esses gemidos
Que ela derrama, à noite, sobre nós,
À alma de quem se embala
Numa saudade mística e tranquila...
Nossa alma apenas é que pode ouvi-la,
E que consegue perceber-lhe a voz.
Escuta a queixa tácita e celeste
Que este silêncio fala a ti, tão triste...
E hás de lembrar o dia em que tu viste
Perto de ti, pela primeira vez,
Alguém a quem disseste
Uma frase de amor, de amor... ó louca!
E que, no entanto, só mostrou na boca
A mais brutal e irônica mudez!
(Francisca Júlia)
Você pode perceber que as palavras que rimam são oxítonas ou monossílabos: pomar/ ar, dor/ rumor, nós/ voz, vez/ mudez. Portanto, essas rimas são chamadas de “agudas”.
-
Rima grave
As palavras que rimam são paroxítonas (a sílaba forte é a penúltima). Para exemplificar, vamos analisar as rimas deste poema:
Epigrama no 5
Gosto da gota d’água que se equilibra
na folha rasa, tremendo ao vento.
Todo o universo, no oceano do ar, secreto vibra:
e ela resiste, no isolamento.
Seu cristal simples reprime a forma, no instante incerto:
pronto a cair, pronto a ficar — límpido e exato.
E a folha é um pequeno deserto
para a imensidade do ato.
(Cecília Meireles)
Você notou? As palavras que rimam são paroxítonas: equilibra/ vibra, vento/ isolamento, incerto/ deserto, exato/ ato. Portanto, essas rimas são chamadas de “graves”.
-
Rima esdrúxula
As palavras que rimam são proparoxítonas (a sílaba forte é a antepenúltima). Para exemplificar, vamos analisar as rimas deste poema:
Psicologia de um vencido
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
(Augusto dos Anjos)
-
Rima consoante ou perfeita
As palavras que rimam possuem exatamente a mesma terminação. Para exemplificar, vou retomar o soneto (poema com 14 versos) de Olavo Bilac:
Guerreira
É a encarnação do mal. Pulsa-lhe o peito
Ermo de amor, deserto de piedade...
Tem o olhar de uma deusa e o altivo aspeito
Das cruentas guerreiras de outra idade.
O lábio ao ríctus do sarcasmo afeito
Crispa-se-lhe num riso de maldade,
Quando, talvez, as pompas, com despeito,
Recorda da perdida majestade.
E assim, com o seio ansioso, o porte erguido,
Corada a face, a ruiva cabeleira
Sobre as amplas espáduas derramada,
Faltam-lhe apenas a sangrenta espada
Inda rubra da guerra derradeira,
E o capacete de metal polido.
Observe como a terminação das palavras que rimam é igual: “-eito”, “-dade” ou “-ade”, “-ido”, “-eira”, “-ada”. Quando isso acontece, dizemos que a rima é perfeita.
-
Rima toante
As palavras que rimam possuem semelhança SOMENTE entre vogais (a, e, i, o, u) tônicas (fortes). Veja só este exemplo:
Som
Alma divina,
por onde me andas?
Noite sozinha,
lágrimas, tantas!
Que sopro imenso,
alma divina,
em esquecimento
desmancha a vida!
Deixa-me ainda
pensar que voltas,
alma divina,
coisa remota!
Tudo era tudo
quando eras minha,
e eu era tua,
alma divina!
(Cecília Meireles)
Observe que a rima se sustenta por meio do som da vogal tônica “i”: divina/ sozinha, divina/ vida, ainda/ divina, minha/ divina.
-
Rima imperfeita
As palavras que rimam NÃO possuem exatamente a mesma terminação, mas a sonoridade é semelhante a partir da última vogal tônica (forte). Para exemplificar, vamos analisar as rimas de um fragmento do longo poema As cismas do destino, do poeta brasileiro Augusto dos Anjos:
III
Homem! por mais que a Ideia deintegres,
Nessas perquisições que não têm pausa,
Jamais, magro homem, saberás a causa
De todos os fenômenos alegres!
Em vão, com a bronca enxada árdega, sondas
A estéril terra, e a hialina lâmpada oca,
Trazes, por perscrutar (oh! ciência louca!)
O conteúdo das lágrimas hediondas.
Negro e sem fim é esse em que te mergulhas
lugar do Cosmos, onde a dor infrene
É feita como é feito o querosene
Nos recôncavos úmidos das hulhas!
Porque, para que a Dor perscrutes, fora
Mister que, não como és, em síntese, antes
Fosses, a refletir teus semelhantes,
A própria humanidade sofredora!
[...]
Nesse poema, é notável que as palavras “oca” e “louca” não possuem a mesma terminação. Assim, a rima é feita entre os sons “oca” e “ouca”. Note que em “oca”, o “o” é a última vogal tônica. Já em “louca”, o “o” também é a última vogal tônica, já que “u” é uma semivogal (depende de uma vogal e, por isso, acompanha-a).
Quando as palavras que rimam pertencem a uma mesma classe gramatical (substantivo com substantivo, adjetivo com adjetivo, verbo com verbo etc.), a rima é pobre.
Já o contrário, quando as palavras que rimam pertencem a classes gramaticais diferentes (substantivo com adjetivo, verbo com substantivo ou outras variações), a rima é rica. Vou retomar o poema de Cruz e Sousa para você entender o que é rima pobre e o que é rima rica:
Vesperal
Tardes de ouro para harpas dedilhadas
Por sacras solenidades
De catedrais em pompa, iluminadas
Com rituais majestades.
Substantivo é uma palavra que nomeia os seres ou as coisas, como “solenidades” e “majestades”. Já adjetivo é uma palavra que caracteriza o substantivo, como “dedilhadas” e “iluminadas”. Portanto, na primeira estrofe, as rimas são pobres.
Tardes para quebrantos e surdinas
E salmos virgens e cantos
De vozes celestiais, de vozes finas
De surdinas e quebrantos...
O termo “surdinas” é um substantivo, enquanto o termo “finas” é um adjetivo. Então, na segunda estrofe, a rima obtida entre “surdinas” e “finas” é rica. Já “cantos” e “quebrantos” são substantivos, e formam, portanto, uma rima pobre.
Quando através de altas vidraçarias
De estilos góticos, graves,
O sol, no poente, abre tapeçarias,
Resplandecendo nas naves...
O termo “graves” é um adjetivo, enquanto o termo “naves” é um substantivo. Assim, na terceira estrofe, a rima obtida entre “graves” e “naves” é rica. Já “vidraçarias” e “tapeçarias” são substantivos, e formam, portanto, uma rima pobre.
Tardes augustas, bíblicas, serenas,
Com silêncio de ascetérios
E aromas leves, castos, de açucenas
Nos claros ares sidéreos...
O termo “serenas” é um adjetivo, enquanto o termo “açucenas” é um substantivo. Então, na quarta estrofe, a rima obtida entre “serenas” e “açucenas” é rica. O mesmo ocorre entre “ascetérios” (substantivo) e “sidéreos” (adjetivo), formando mais uma rima rica.
Tardes de campos repousados, quietos,
Nos longes emocionantes...
De rebanhos saudosos, de secretos
Desejos vagos, errantes...
Na quinta estrofe, todas as palavras que rimam são adjetivos. Todas as rimas da estrofe então são pobres.
Ó Tardes de Beethoven, de sonatas,
De um sentimento aéreo e velho...
Tardes da antiga limpidez das pratas,
De Epístolas do Evangelho!...
Os termos “sonatas” e “pratas” são substantivos. Assim, na sexta estrofe, a rima obtida entre “sonatas” e “pratas” é pobre. A palavra “velho” é um adjetivo, enquanto a palavra “Evangelho” é um substantivo. Como são de classes gramaticais diferentes, essas palavras formam uma rima rica.
-
Rima rara
Esse tipo de rima ocorre entre termos difíceis de rimar. A dificuldade está no fato de que existem poucas palavras com determinada terminação. Por exemplo, palavras terminadas em “-ão” existem muitas, já palavras terminadas em “-entre” são pouquíssimas. Portanto, rima com palavras terminadas em “-entre” seria uma rima rara.
O lupanar
Ah! Por que monstruosíssimo motivo
Prenderam para sempre, nesta rede,
Dentro do ângulo diedro da parede,
A alma do homem polígamo e lascivo?!
Este lugar, moços do mundo, vede:
É o grande bebedouro coletivo,
Onde os bandalhos, como um gado vivo,
Todas as noites, vêm matar a sede!
É o afrodístico leito do hetairismo
A antecâmara lúbrica do abismo,
Em que é mister que o gênero humano entre.
Quando a promiscuidade aterradora
Matar a última força geradora
E comer o último óvulo do ventre!
(Augusto dos Anjos)
-
Rima preciosa
Esse tipo de rima é artificial, uma rima forçada, sem naturalidade, pois a terminação das palavras que rimam é estruturalmente diferente. O poema abaixo é muito longo, então decidi transcrever apenas um fragmento. Note a rima entre as palavras “mudar-se” e “disfarce”. Não há naturalidade nessa rima, pois uma palavra apresenta hífen para separar o verbo de um pronome, enquanto a outra palavra é um substantivo:
Amor com amor se paga
Qual vagueava airosa Amímone sem par
Num árido país, em busca de uma fonte,
Amímone feliz, com quem o Deus do mar
Logrou feliz comércio, em prêmio de a arrancar
Ao lúbrico furor de um sátiro do monte;
Qual era em formosura a grega decantada,
Do Eurotas em nau frígia a Pergamo levada,
Que a pelejas sem fim, com seus fatais encantos
Levou consortes dois, e heróis de impérios tantos;
Qual era em gentileza a que venceu de amor
Ao nume do trovão, e em cisne o fez mudar-se,
Tal eras! Adorei-te, e cheio de terror
Previa Jove em águia, em touro roubador,
Ou tomando por ti outro qualquer disfarce.
[...]
(Ovídio)
Saiba mais: O que é um soneto?
Exercícios resolvidos sobre tipos de rima
Questão 1
As pombas
Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca, a madrugada...
E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...
Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;
No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...
CORREIA, Raimundo. Sinfonias. Rio de Janeiro: Livraria editora de Faro & Lino, 1883.
Assinale a alternativa em que todos os tipos de rima podem ser identificados no poema de Raimundo Correia.
A) externa, cruzada, aguda, imperfeita, preciosa, esdrúxula.
B) interna, interpolada, esdrúxula, imperfeita, rica, grave.
C) interna, cruzada, esdrúxula, toante, rara, preciosa.
D) externa, misturada, aguda, imperfeita, pobre, grave.
E) externa, interpolada, grave, perfeita, rica, aguda.
Resolução: Alternativa E.
O poema apresenta rima externa (a palavra que rima está no fim dos versos), interpolada (esquema ABBA), grave (rimam paroxítonas), perfeita (a terminação das palavras que rimam é igual), rica (rimam palavras de classes gramaticais diferentes, como “despertada” e “madrugada”, respectivamente, adjetivo e substantivo), aguda (rima entre oxítona e monossílabo tônico, ou seja, “pombais” e “mais”).
Questão 2
A chegada
Vimos de longe; o guia vai na frente;
É longa a estrada... aos ríspidos estalos
Do impaciente látego, os cavalos
Correm veloz, larga e fogosamente...
Já estranho rubor inflama o Oriente;
Rompe a manhã; cantam ao longe os galos...
Que extensos campos! que profundos valos
Vêm-se! que fresco matinal se sente!
Eis de uma ponte rústica a passagem;
Embaixo as águas refervendo bramam...
Está próximo o termo da viagem —
Eis a cidade enfim; os sinos clamam,
E as casas brancas — que feliz paisagem! —
Pelo pendor da serra se derramam...
CORREIA, Raimundo. Sinfonias. Rio de Janeiro: Livraria editora de Faro & Lino, 1883.
Assinale a alternativa em que todos os tipos de rima podem ser identificados no poema de Raimundo Correia.
A) interna, cruzada, esdrúxula, perfeita, rica.
B) externa, misturada, aguda, imperfeita, rica.
C) externa, interpolada, grave, perfeita, pobre.
D) externa, emparelhada, aguda, toante, pobre.
E) interna, emparelhada, grave, imperfeita, rica.
Resolução: Alternativa C.
O poema apresenta rima externa (a palavra que rima está no fim dos versos), interpolada (esquema ABBA), grave (rimam paroxítonas), perfeita (a terminação das palavras que rimam é igual), pobre (rimam palavras da mesma classe gramatical, como “estalos” e “cavalos”, ambas substantivos).
Fontes
ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. Porto Alegre: L&PM, 2010.
BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 40. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2024.
BILAC, Olavo. Poesias. Rio de Janeiro: Garnier, 1902.
CAMÕES, Luís Vaz de. Sonetos. Disponível em: https://humanitas.ufrn.br/wp-content/uploads/2025/02/Sonetos.pdf.
CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima gramática da língua portuguesa. 49. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2020.
CRUZ E SOUSA. Broquéis. Porto Alegre: L&PM, 2011.
FERREIRA GULLAR. A luta corporal. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
GOLDSTEIN, Norma. Versos, sons, ritmos. 14. ed. São Paulo: Ática, 2006.
MEIRELES, Cecília. Antologia poética. 3. ed. São Paulo: Global, 2013.
OVÍDIO. Os amores. Tradução de António Feliciano de Castilho. Rio de Janeiro: Bernardo Xavier Pinto de Sousa, 1858.
QUINTANA, Mario. Apontamentos de história sobrenatural. São Paulo: Globo, 2005.
SILVA, Francisca Júlia da. Mármores. Brasília: Senado Federal, 2020.