Balada de amor ao vento é um romance da escritora moçambicana Paulina Chiziane. O livro é uma narrativa da literatura contemporânea. A obra evidencia a cultura moçambicana a partir de uma voz feminina, a qual mostra a realidade da mulher nesse país ainda no período em que Moçambique era colônia de Portugal.
O livro relata a vida de Sarnau, habitante da aldeia de Mambone, que se apaixona por Mwando. Abandonada pelo namorado, acaba se casando com o filho do rei. Após reencontrar o amado, fica grávida dele, mas o marido acredita ser o pai do filho de Sarnau. Ela foge com o amante, é abandonada por ele novamente. E, ao final, os dois reencontram-se após quinze anos de afastamento.
Leia também: Niketche: uma história de poligamia — outra obra de Paulina Chiziane
Tópicos deste artigo
- 1 - Resumo sobre Balada de amor ao vento, de Paulina Chiziane
- 2 - Análise da obra Balada de amor ao vento, de Paulina Chiziane
- 3 - Características da obra Balada de amor ao vento, de Paulina Chiziane
- 4 - Contexto histórico da obra Balada de amor ao vento, de Paulina Chiziane
- 5 - Paulina Chiziane, autora de Balada de amor ao vento
Resumo sobre Balada de amor ao vento, de Paulina Chiziane
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Balada de amor ao vento é um romance da escritora moçambicana Paulina Chiziane.
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O livro conta a história da jovem Sarnau, moradora da aldeia de Mambone, em Moçambique, que se apaixona pelo jovem Mwando.
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Eles começam a namorar, mas Mwando termina o relacionamento porque a família quer que ele se case com outra mulher.
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Sarnau acaba sendo escolhida pela rainha para se casar com seu filho Nguila e ser sua primeira esposa.
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Nguila tem sete esposas, sendo sua preferida Phati, quem rivaliza com Sarnau pela atenção do rei.
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Mwando acaba sendo abandonado pela esposa após o filho deles morrer com dois anos de idade.
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Sarnau e Mwando reencontram-se, e a chama do amor reacende, de forma que se tornam amantes.
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Grávida de Mwando, Sarnau dá à luz Zucula, que o rei acredita ser seu filho.
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Phati descobre a traição da primeira esposa do rei, que foge com seu amante Mwando.
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Mais tarde Mwando abandona Sarnau novamente, sem saber que ela está grávida de uma menina que terá o nome de Phati.
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Mwando é deportado para Angola, onde vive durante 15 anos, e volta para os braços de Sarnau, que o aceita de volta.
Análise da obra Balada de amor ao vento, de Paulina Chiziane
→ Personagens da obra Balada de amor ao vento
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Curandeira.
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Eni: amiga de Sarnau.
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Januário: curandeiro angolano.
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João: filho de Sarnau.
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Khedzi: pretendente de Nguila.
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Khelu: um jovem da aldeia.
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Mayi: uma das mulheres do rei.
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Mwando: primeiro amor de Sarnau.
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Nguila: marido de Sarnau.
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Nhambi: amigo de Mwando.
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Padre Ferreira.
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Phati: uma das esposas de Nguila.
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Phati: filha de Sarnau e Mwando.
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Rindau: irmã de Sarnau.
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Rungo: pai de Mwando.
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Salomão: um estudante no colégio dos padres.
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Sarnau: protagonista e narradora.
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Sumbi: esposa de Mwando.
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Zucula: filho de Sarnau e Mwando.
→ Tempo da obra Balada de amor ao vento
A narrativa apresenta tempo cronológico, pois os fatos são narrados de forma linear e progressiva. Já a época em que eles ocorrem não é mencionada pela narradora. Porém, pelas características da obra, tudo indica que a história se passa antes da independência do país, ou seja, quando Moçambique ainda era uma colônia portuguesa.
→ Espaço da obra Balada de amor ao vento
A história ocorre na aldeia de Mambone, além de Vilanculos e Lourenço Marques (Maputo), em Moçambique.
→ Narrador da obra Balada de amor ao vento
O romance possui narrador-personagem, pois a narradora participa da história que ela mesma narra, sendo também personagem.
→ Enredo da obra Balada de amor ao vento
A narradora, já envelhecida, começa a história dizendo da saudade que sente de sua infância em Mambone. Agora, no tempo da narração, ela vive “nesta Mafalala de casas tristes, paraíso de miséria, onde as pessoas defecam em baldes mesmo à vista de toda a gente e as moscas vivem em fausto na felicidade da terra de promissão”.
A história que ela quer contar ocorreu na aldeia de Mambone e começa de fato quando a narradora encontra seu primeiro amor:
Na aldeia realizava-se a festa de circuncisão dos meninos já tornados homens. Jovens dos lugares mais remotos estavam presentes, pois hão há nada melhor que uma festa para a diversão, exibição e pesca de namoricos. Eu estava bonita com a minha blusinha cor de limão, capulana mesmo a condizer, enfeitadinha com colares de marfim e missangas. Coloquei-me na rede para ser pescada, e por que não? Já era mulherzinha e tinha cumprido com todos os rituais.
Nesse dia, ela conhece um rapaz que vivia no colégio dos padres. Seu nome é Mwando. Porém, ele estuda para padre. Ela passa a conversar com ele nos dias seguintes, apaixonada. Mwando acaba se apaixonando por ela também. Ele é expulso do colégio quando um padre o surpreende escrevendo estas palavras:
Teus olhos têm o encanto de um poema divino. Que pena, não saberes ler. Escrever-te-ia uma carta linda, longa. Dedicar-te-ia todas as palavras que ao teu lado não consigo pronunciar quando o teu sorriso estrangula a melodia da minha garganta. Escrever-te-ia um poema de sumo de ananás e batata-doce com aroma de canho. Levar-te-ia nos meus versos a vaguear no universo do sonho transportados na concha do girassol. Sarnau, tu ajudaste-me a nascer, pois se não tivesses começado, nunca teria a coragem de dizer qualquer coisa sobre o meu coração. Semeaste em mim o perfume das acácias. Escuto a música dos galos à distância. Estou no abismo da solidão, no gólgota da distância, o domingo está longe para...
Logo Mwando se adapta à nova realidade, além de namorar Sarnau. Ele trabalha com os negócios do pai e cuida da casa:
Sarnau, não nos vemos há dois meses, mas isto é por causa do trabalho intenso que tenho tido, não descanso nada, sabes? Já te disse que as minhas irmãs são preguiçosas e eu tenho que fazer todo o trabalho da casa. Fui três vezes à cidade para tratar dos negócios do velho, espero que me compreendas.
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Porém, ela fica sabendo que ele vai se casar com outra moça, escolhida pelos pais dele. Chorando, Sarnau diz aceitar ser a segunda ou a terceira mulher. E tem como resposta: “Sarnau, o teu desejo não pode ser realizado. Nunca serás minha mulher, nem segunda, nem terceira, nem centésima primeira. Eu sou cristão e não aceito a poligamia”.
Sarnau tenta se matar em um lago. Mas é salva por um pescador, levada de volta para casa e cuidada por uma curandeira. Por fim, acaba sendo escolhida pela rainha para ser sua nora: “O padre Ferreira prontificou-se a dar-nos um casamento cristão, a nós, que nem sequer fomos baptizados. Ofereceu-me um vestido de noiva magnífico”.
Assim, ela se casa com Nguila, “o homem mais desejado por todas as fêmeas do território”. Sarnau passa a viver uma vida de luxo:
Esta casa de quatro compartimentos onde vivemos, a mais bonita de Mambone depois das casas dos colonos, foi construída exclusivamente para nela residir o herdeiro e a sua primeira esposa. Foi mobilizado um efectivo de vinte homens para se ocuparem da sua construção. Outros tantos foram encarregados da decoração, e não há dúvida de que esses homens utilizaram o máximo do seu bom gosto para o arranjo desta casa. Mandaram vir de Lourenço Marques este mobiliário de madeira esculpida, que se diz ter custado cerca de trinta vacas, quase o preço do meu lobolo. Gosto de poisar os pés neste chão fofo, todo coberto de peles de leopardo, que o meu marido coleccionou em todas as suas caçadas.
Tenho um roupeiro invejável; a minha primeira sogra veste-me de capulanas vermelhas, luxuosíssimas, blusas bordadas com fios de ouro, colares de marfim, ouro e cobre, coisas que ela coleccionou durante largo tempo, só para presentear a primeira nora, a futura rainha. Cada vez que recebo visitas tenho de usar um traje novo, diferente.
No entanto, Sarnau encontra o marido com outra. Além disso, ele é violento:
Arremessou-me um violento pontapé no traseiro que me deixou estatelada no chão. Minutos depois voltei à posição inicial. Enviou-me uma bofetada impiedosa que fez saltar um dente. A minha rival assistia a tudo, coroando-me com um sorriso de troça e de triunfo. Reparei bem nela. Tinha o peito cheio e o ventre muito dilatado. Estava grávida, meu Deus, enquanto eu que sou a primeira ainda não senti lá dentro a lombriga da gravidez.
Ele a trata com carinho quando Sarnau finalmente engravida. Então a narradora volta a falar de Mwando, que sofre porque perdeu seu primeiro filho, o qual tinha apenas dois anos. Ele também foi abandonado pela esposa, que não seguia os costumes de servidão impostos às mulheres da aldeia:
No primeiro dia da vida conjugal, a Sumbi não cumpriu com as regras. Simulando dores de cabeça, não pilou nem cozinhou para os sogros. Sentava-se na cadeira como os homens, recusando o seu lugar na esteira ao lado das sogras e das cunhadas.
Mas o casal estava apaixonado:
Os recém-casados, como dois pombinhos, não se separavam um só instante. Acordavam felizes muito depois de o sol nascer, na hora em que os mais madrugadores regressavam à casa completamente esgotados pelo sol. Só come quem trabalha, ensina a sabedoria popular. O casal, tão preocupado com os seus amores, esqueceu por instantes esta lição, transmitida de boca em boca a todas as gerações, o que provocou murmúrios no seio da família.
A atitude de Sumbi era criticada:
As línguas do povo começaram a actuar, o caso não era vulgar. Onde já se viu um homem colar-se como um piolho nas capulanas da mulher, cozinhar para ela, lavar para ela? As gentes conspiraram, pois o casal seria capaz de contaminar a aldeia com aquele modo de vida. Afastavam-se do mal, impedindo as esposas e os filhos de se aproximarem daquela mulher para não serem contaminados por aquele génio do feitiço. As mulheres, por sua vez, tratavam a Sumbi com desdém, que mais não era senão cobiça dos seus dotes naturais, e outras porque viam os seus maridos completamente perdidos pelos encantos dessa mulher. A estes burburinhos, Mwando reagia com arrogância, porque não via mal nenhum em agradar a mulher que era sua. Sumbi, por sua vez, desafiava o mundo com sorrisos e gestos sensuais, como se alguém lhe tivesse segredado que o seu sorrir dominava o mundo.
Com o tempo, ela passou a receber presentes de admiradores. As atitudes dela incomodavam a todos, e o conselho da aldeia reuniu-se. Cobraram uma atitude de Mwando. O casal então abandonou a aldeia. Após a morte do filho, Sumbi conseguiu um marido rico e foi embora, deixando Mwando.
Já Sarnau está infeliz. Agora são sete mulheres para o seu marido. Ela disputa a atenção dele com Phati, a quinta esposa. Após a morte do rei, houve disputa de poder e muita violência. Sarnau é rainha quando reencontra Mwando. O povo está em guerra:
Vieste a Mambone em boa hora, Mwando. Todos os homens valentes estão a ser recrutados para o exército. Os melhores guerreiros acompanharam o rei na sua morte [pai de Nguila]. Além disso, estamos em guerra, os porcos dos Ndaus aproveitaram o momento de luto para roubar gado e machambas.
Em um momento de paixão, Sarnau vai ao encontro de Mwando e suas “almas acasalaram-se numa comunhão sublime, morremos e renascemos. Os pássaros cantaram para nós, o céu e a terra uniram-se ao nosso abraço e entoámos em surdina uma doce canção de amor”.
Eles passam a se encontrar às escondidas, e correm grande risco. Ela fica grávida de Mwando. Mas seu marido acredita que é pai da criança:
Sinto que ele me ama. Acaricia o meu ventre, e aguarda ansiosamente o nascimento do herdeiro. Mas porque me desprezou todo este tempo? Por que esperou que eu desse o meu coração ao outro para depois vir-me contar historiazinhas de amor? O mal já está feito e cresce no meu ventre com a velocidade de um mundo. Não podem imaginar o esforço que faço para corresponder às suas carícias. Quem me dera voltar a ser como era, quem me dera voltar a nascer para colocar cada pedra no seu lugar. Sinto-me perdida, já não consigo disfarçar os meus sentimentos e não tardará muito que se descubram as malhas da traição, venham todos os defuntos em meu socorro.
Os amantes planejam fugir juntos após o nascimento da criança. O menino nasce, e Sarnau já não está mais interessada em fugir, pois isso seria desastroso para toda a família. O rei está feliz com o filho, enquanto Mwando está frustrado. Para complicar, Pathi descobre o caso amoroso de Sarnau.
Então os amantes, para não morrerem, decidem fugir, deixando o filho para trás: “Entrámos no barco e navegámos rápido com a velocidade da tempestade, e tudo ia ficando para trás: a minha terra, o meu rio, o meu vento, os meus filhos. Adeus tudo o que foi meu, adeus meus filhos, adeus!”.
Eles vão morar em Vilanculos: “Aqui estamos nesta barraca de caniço tão pequena que só dá para dois. Mwando é pescador num barco de indianos e trabalha bem. Ele é que faz todas
as compras, traz-me tudo para casa, uma vez que nem posso sair para não ser descoberta. Nunca imaginei que na vida houvesse homens tão meigos, carinhosos e amorosos como o Mwando. [...]”.
Mwando encontra seu amigo Nhambi, que lhe informa: acusada de feitiçaria, Pathi foi culpada por ter enfeitiçado a rainha [Sarnau]. Foi condenada à morte e enterrada em lugar secreto. Como era a preferida do rei, ele está “abalado, magro e doente”. E também soube que: “os pais dele [Mwando] e outros familiares directos, corriam o perigo de serem deportados para o xibalo”. Mwando então termina com Sarnau.
A partir daí, a narradora narra o destino de degredados:
Muito depressa compreenderam a inutilidade dos seus gritos e protestos. Sabiam-se perdidos para sempre. Pairou um silêncio de morte. Em todas as mentes reinava o desespero e o terror. Iam a caminho de Angola, terra de degredo, da cana, do cacau e do café. Alguns deles eram condenados por crimes graves; outros por caprichos sem fundamento e mais outros simplesmente porque eram negros.
[...]
Era ainda madrugada quando os condenados escolhidos para a destronca alcançaram o seu posto. Receberam o material de trabalho, escutaram as normas que saíam aos gritos das gargantas dos capatazes pretos e caminharam para a zona de destronca com gestos mortos e silenciosos. A terra natal perdera-se na distância e os olhos arregalavam-se na descoberta de novas paisagens. Desorientados, exaltaram o sol que parecia nascer do Sul com arrebóis de glória, espalhando uma luz escassa que perfurava o ramalhado denso da floresta inviolada. [...].
Em Angola, aparece a figura de padre Moçambique, é Mwando, condenado a quinze anos de degredo por ter se envolvido com outra mulher casada: “Mwando, o padre Moçambique, chegou trajando a sua batina de pano cru, chapéu de palha e pés descalços, levando a Bíblia na mão esquerda. [...]”.
Mwando volta para Moçambique:
Passaram já quinze anos. Mwando já não era o rapazinho de Mambone, mas um homem duro, maduro, com cabelos de prata a espreitar timidamente pelas têmporas. Conseguiu conquistar uma posição invejável, no degredo. Fez uma pequena fortuna, construiu uma barraca de cimento caiada de branco. As mulheres fizeram tudo ao seu alcance para prendê-lo àquela terra e nada. Vendeu tudo o que tinha e regressou à terra natal.
Ficamos sabendo que Sarnau tem outra filha: Pathi. Ela estava grávida quando foi abandonada por Mwando. Ela mora agora em um bairro chamado Mafalala, em Lourenço Marques, atual Maputo. Seu filho Zucula agora é rei, mas não tem contato com ela. Sarnau também é mãe de João, sem pai, um homem que os abandonou.
Sarnau e Mwando se reencontram. Ele implora seu perdão, mas ela prefere dizer-lhe adeus. Porém, ela acaba cedendo:
Enterrei o passado. Puxei o candeeiro, soprei, apagou-se. Mergulhámos na escuridão da paz, no silêncio da paz, no esquecimento de todas as coisas, naquela ausência que encerra todas as maravilhas do mundo. A solidão desfez-se.
O vento espalha melodia em todo o universo. Continua a chover lá fora.
Assim, a obra mostra uma cultura em que a mulher é servil e tratada com violência, em um contexto de poligamia, em que os homens podem ter mais de uma esposa. Essas esposas vivem em disputa pela atenção do marido e não têm liberdade. Nesse contexto, as tradições do povo são valorizadas e soberanas.
Veja também: Mayombe — romance de Pepetela que conta a história de guerrilheiros na luta pela independência de Angola
Características da obra Balada de amor ao vento, de Paulina Chiziane
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Estrutura da obra Balada de amor ao vento
O livro Balada de amor ao vento é composto por 20 capítulos sem título.
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Estilo literário da obra Balada de amor ao vento
A obra de Paulina Chiziane faz parte da literatura moçambicana pós-independência. (a independência de Moçambique ocorreu em 1975.) Portanto, é parte da literatura contemporânea do país. A obra da autora evidencia, de forma crítica, os costumes de um povo e a realidade de Moçambique.
Seu romance, em alguns momentos, apresenta lirismo (uma linguagem plurissignificativa, que o aproxima da poesia). O fluxo de consciência ou monólogo interior também é usado para explicitar o universo íntimo dos personagens. O protagonismo feminino evidencia a condição da mulher negra no país africano.
Contexto histórico da obra Balada de amor ao vento, de Paulina Chiziane
Balada de amor ao vento foi produzido no período pós-independência de Moçambique e publicado, pela primeira vez, em 1990. Após a independência, em 1975, a Frente de Libertação de Moçambique assumiu o poder. Assim, Samora Machel foi o primeiro presidente, de caráter socialista.
Porém, o país vivenciou uma guerra civil entre 1977 e 1992, já que o grupo rebelde Resistência Nacional Moçambicana passou a combater o regime vigente. Obviamente, essa situação ameaçou os costumes das aldeias, que sofreram com a violência da guerra. Assim, o contexto da obra de Paulina Chiziane remete ao período colonial.
No romance, o fato de o personagem Mwando estudar em um colégio de padres mostra a influência dos colonizadores, os quais tiveram que abandonar o país após a independência. Nesse contexto, a obra serve também como uma espécie de resgate da cultura moçambicana e, por isso, tem algo de nacionalista.
Saiba mais: Literatura africana — características, principais autores e obras
Paulina Chiziane, autora de Balada de amor ao vento
A escritora moçambicana Paulina Chiziane nasceu em 4 de junho de 1955, na vila de Manjacaze. Ainda na infância, passou a viver em Maputo, onde estudou em uma escola católica. Recebeu uma educação escolar e familiar centrada em afazeres domésticos e valorização do casamento.
Mais tarde, estudou na Escola Comercial de Maputo. Com 19 anos de idade, ela se casou. Participou ativamente da luta pela independência de Moçambique, junto à Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo). Durante a guerra civil, foi voluntária da Cruz Vermelha. Suas primeiras publicações ocorreram em 1984.
O primeiro romance da autora foi Balada de amor ao vento, publicado em 1990. Seu ativismo político continuou em 1997, quando atuou junto ao Núcleo das Associações Femininas de Zambézia (Nafeza). Foi a primeira mulher africana a ganhar o Prêmio Camões, em 2021, o mais importante prêmio literário da língua portuguesa.
Créditos das imagens
[1] Companhia das Letras (reprodução)
[2] Wikimedia Commons (reprodução)
Fontes
BIOGRAFIAS DE MULHERES AFRICANAS. Paulina Chiziane (1955). Disponível em: https://www.ufrgs.br/africanas/paulina-chiziane-1955/.
CHIZIANE, Paulina. Balada de amor ao vento. 2. ed. Lisboa: Caminho, 2003.
DINIZ, Stefânia de Moraes. Queda livre para dentro de si: a ancestralidade feminina em Niketche: uma história de poligamia. 2016. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Federal de São João del-Rei, São João del-Rei, 2016.
LANGA, Lisa Mónica Martinho. Moçambique 20 anos de Paz, que desafios para a sua manutenção e consolidação? 2015. Dissertação (Mestrado em Ciências Políticas, Governação e Relações Internacionais) – Faculdade de Ciências Sociais, Universidade Católica de Moçambique, Quelimane, 2015.
NAFEZA. Apresentação. Disponível em: https://nafezamoz.wordpress.com/apresentacao/.