Admirável mundo novo é um romance do escritor inglês Aldous Huxley. O livro é uma narrativa modernista, de caráter distópico (realidade antiutópica, ou seja, não ideal), marcado pelo pessimismo em relação ao futuro da humanidade, além de fazer crítica ao totalitarismo e refletir sobre os perigos dos avanços tecnocientíficos.
A obra conta a história de Bernard Marx, o qual, em companhia de sua parceira, Lenina, vai até uma Reserva de Selvagens, onde conhece John e sua mãe, Linda. Fora das reservas, as pessoas como Lenina nascem em centros de incubação e são condicionadas a viverem em uma sociedade de castas. Mas conseguem suportar a realidade, pois recebem doses da droga alienante chamada “soma”.
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Tópicos deste artigo
- 1 - Resumo sobre Admirável mundo novo
- 2 - Análise da obra Admirável mundo novo
- 3 - Características da obra Admirável mundo novo
- 4 - Contexto histórico da obra Admirável mundo novo
- 5 - Relação entre Admirável mundo novo e 1984
- 6 - Filmes sobre Admirável mundo novo
- 7 - Aldous Huxley, autor de Admirável mundo novo
Resumo sobre Admirável mundo novo
- No século XXVI, no ano de 632 d. F. (depois de Ford), o planeta é governado pelo Estado Mundial, em um regime totalitário e tecnológico.
- A história de Admirável mundo novo transcorre em Londres, na Inglaterra do futuro, quando não existem as figuras de pai e mãe.
- Todas as pessoas nascem em centros de incubação e são condicionadas a aceitar a realidade, sem questionar.
- A sociedade é dividida nas seguintes castas: Alfa (superior), Beta, Gama, Delta e Épsilon (inferior).
- Nessa sociedade, toda a revolta é controlada pelo condicionamento (que leva à aceitação) e pelo consumo de soma (droga alienante).
- Bernard Marx leva Lenina para conhecer a Reserva de Selvagens, ou Malpaís, no Novo México.
- Os selvagens não são condicionados, pois nascem pelo método natural, como John, filho de Linda.
- No passado, Linda, ao visitar o lugar, foi deixada para trás, já grávida (devido à falha na contraconcepção), e, por vergonha, ficou morando ali.
- Bernard leva mãe e filho para Londres, onde o belo John passa a ser chamado de o Selvagem e desperta a curiosidade de todos.
- Linda, extremamente envelhecida, provoca o asco de todos e prefere ficar entorpecida com soma até a morte.
- O Selvagem apaixona-se por Lenina e fica revoltado quando percebe que ela só se interessa por sexo, como é comum naquela sociedade.
- No final, desapontado com aquele “admirável mundo novo”, John decide se refugiar em um farol abandonado, mas logo vira atração para os curiosos.
- Sem escapatória, John, o Selvagem, decide se enforcar e, assim, tira a própria vida.
Análise da obra Admirável mundo novo
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Personagens
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- Personagens principais:
- Bernard Marx: trabalha no gabinete de Psicologia;
- John: o Selvagem;
- Helmholtz Watson: amigo de Bernard e de John;
- Lenina Crowne: enfermeira;
- Linda: mãe de John.
- Personagens secundários:
- Benito Hoover;
- Clara Deterding;
- Darwin Bonaparte;
- Dr. Shaw;
- Fanny;
- Fifi Bradlaugh;
- George Edzel;
- Henry Foster;
- Morgana Rothschild;
- Mustafá Mond;
- Sarojini Engels;
- Srta. Keate;
- Thomas, o Diretor.
- Personagens principais:
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Tempo
O romance possui tempo cronológico, pois a narrativa apresenta fatos em sequência temporal linear. Já a época em que ocorre a ação é o ano é 632 d. F. (depois de Ford), ou seja, no século XXVI, quando o famoso industrial estado-unidense Henry Ford é misticamente adorado por todos.
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Espaço
A história transcorre em Londres (na Inglaterra do futuro) e no Novo México, onde fica a Reserva de Selvagens, ou Malpaís.
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Narrador
A narrativa conta com narrador onisciente, conhecedor de todos os detalhes da história e do universo íntimo dos personagens. Não narra apenas a ação, como se estivesse observando os fatos, pois é como uma espécie de deus, que sabe de tudo e está em todos os lugares ao mesmo tempo.
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Enredo
O Estado Mundial governa o planeta. Seu lema é: “Comunidade, Identidade, Estabilidade”. O romance começa no Centro de Incubação e Condicionamento de Londres, onde o Diretor mostra o centro para alguns estudantes e explica como é o processo de reprodução.
Junta-se ao grupo o Sr. Foster, o qual ajuda o Diretor a mostrar o Centro aos estudantes. Os indivíduos são criados para pertencer a diferentes castas: Alfa, Beta, Gama, Delta e Épsilon. Nessa realidade distópica, idiomas como polonês, francês e alemão são línguas mortas. Além disso, o conceito de “pais” não mais existe:
— Em uma palavra — resumiu o Diretor — os pais eram o pai e a mãe. — Essa indecência, que, na realidade, era ciência, caiu com estrépito no silêncio daqueles jovens, que não ousavam olhar-se. — A mãe — repetiu ele em voz alta, para fazer penetrar bem fundo a ciência; e, inclinando-se para trás da cadeira, disse gravemente: — São fatos desagradáveis, eu sei. Mas é que a maioria dos fatos históricos são mesmo desagradáveis.
Na realidade da obra, é usado o “ensino durante o sono”, chamado de “hipnopedia”, responsável pelo condicionamento, feito pelo Estado. Enquanto dormem, as crianças são submetidas a treinamentos como o “Curso elementar de Consciência de Classe”. O Diretor deixa os estudantes ouvirem um pouco do que é introjetado na mente delas:
“As crianças Alfas vestem roupas cinzentas. Elas trabalham muito mais do que nós porque são formidavelmente inteligentes. Francamente, estou contentíssimo de ser um Beta, porque não trabalho tanto. E, além disso, nós somos muito superiores aos Gamas e aos Deltas. Os Gamas são broncos. Eles se vestem de verde e as crianças Deltas se vestem de cáqui. Oh, não, não quero brincar com crianças Deltas. E os Épsilons são ainda piores. São muito broncos para saberem...”
Foster e o Diretor entram no elevador e dão as costas para Bernard Marx, o qual trabalha no Gabinete de Psicologia e tem uma “reputação desagradável”. Mustafá, admirado pelo Diretor, diz em voz alta que “a História é uma farsa”, palavras atribuídas a “Nosso Ford”. Então, o narrador se centra em Lenina Crowne.
Ela vai sair com Henry Foster. Ao conversar com Fanny, que também trabalha no Centro, a colega condena Lenina por sair apenas com Henry durante quatro meses e não ter saído com nenhum outro homem:
É tão horrivelmente malfeito continuar tanto tempo assim com um único homem. Aos quarenta anos, ou aos trinta e cinco, vá lá. Mas na sua idade, Lenina! Não, francamente, isso não se faz. E você sabe como o D.I.C. se opõe a tudo o que for intenso ou muito prolongado. Quatro meses com Henry Foster, sem ter outro homem! Ele ficaria furioso se soubesse...
Lenina diz ter interesse em sair com o Alfa-Mais Bernard Marx, que a convidou a ir a uma Reserva de Selvagens. Fanny fala da reputação ruim dele: “Dizem que não gosta do Golfe-Obstáculo”. Além disso, ele passa a maior parte do tempo sozinho. E isso é um grande defeito nessa sociedade que condena a individualidade.
Bernard visita seu amigo Helmholtz Watson, professor do Colégio de Engenharia Emocional, no setor de Redação: “Escrevia regularmente para O Rádio Horário, compunha cenários para filmes sensíveis e tinha o dom de criar slogans e versinhos hipnopédicos”. Bernard conta-lhe que vai levar Lenina ao Novo México.
A devoção a Ford é tanta, que as pessoas dessa realidade fazem o “sinal do T sobre o estômago”. Bernard comparece a uma cerimônia. Comprimidos de soma (uma droga alienante tomada por todos os habitantes do “admirável mundo novo”, não só na cerimônia) são distribuídos.
É uma cerimônia aparentemente mística, em que entoam cânticos como:
Nós somos doze, ó Ford; em tuas mãos reunidos; Como as gotas que caem no Ribeiro Social; Ah! Faz com que corramos destemidos; Como teu Calhambeque sem rival!
Vem, Amigo Social, ó Ser Supremo e forte, O Aniquilador dos Doze em Um, gigante! Todos morrer queremos, porque a morte É desta vida o mais sublime instante!
Por fim, eles começam a dizer “Ouço-o! Ele chega!”, como se estivessem tendo uma visão. E “sentindo que era o momento de fazer alguma coisa, Bernard também se pôs de pé num pulo e bradou”:
— Ouço-o! Ele chega!
Mas não era verdade. Não ouvia nada e, para ele, ninguém chegava. Ninguém — apesar da música, apesar da excitação crescente. Todavia, agitou os braços, gritou como os outros; e, quando os demais se puseram a bambolear-se, a bater com os pés e a caminhar a passos arrastados, ele também se bamboleou, também arrastou os pés.
Está claro que Bernard é um tipo de ovelha negra, não se encaixa, não faz parte. Apesar de achar Bernard estranho, Lenina vai com ele para o Novo México. Chegam a Malpaís. O piloto do helicóptero deixa-os lá e promete voltar no dia seguinte para buscá-los.
Antes de partir, diz para Lenina que “eles são absolutamente inofensivos; os selvagens não lhes farão mal algum. Eles têm bastante experiência das bombas de gás para saberem que não devem fazer brincadeiras de mau gosto”.
Malpaís é uma Reserva de Selvagens, os quais não são condicionados, pois nascem da forma natural e assim vivem, primitivamente. Lenina fica horrorizada ao ver um nativo muito velho:
— Velho? — repetiu ela. — Mas o Diretor é velho, e há uma porção de gente que é velha, e no entanto não são assim.
— É porque não deixamos que fiquem assim. Nós os preservamos de doenças, mantemos artificialmente as secreções internas ao nível de equilíbrio da juventude. Não deixamos cair a taxa de magnésio e o cálcio abaixo do que era aos trinta anos. Fazemos transfusões de sangue jovem. Mantemos o metabolismo estimulado permanentemente. Por isso, sem dúvida, eles não têm esse aspecto. Em parte — [Bernard] acrescentou — também porque a maioria morre antes de atingir a idade daquele velho. A juventude quase intata até os sessenta anos, e depois, zás! o fim.
Lenina e Bernard conhecem John (nascido em Malpaís) e sua mãe, Linda (uma Beta). Ela não é natural da reserva, mas teve que ficar lá quando foi visitar o lugar e sofreu um acidente, sendo deixada para trás já grávida. Os processos contraceptivos tinham falhado, e no local não havia lugar para abortar.
Com vergonha por ser mãe, não voltou para Londres, ficando ali na Reserva dos Selvagens. “Quanto ao homem de quem [John] era filho. Linda nunca mais o viu. Chamava-se Tomakin. (Sim, o prenome do D.I.C. era Thomas.) Decerto havia ido embora para o Outro Lado, sem ela — um homem mau, desapiedado, sem entranhas.”
Esse Thomas ou Tomakin é o Diretor do Centro em Londres. Linda chora de felicidade por ver, depois de tantos anos, “um rosto civilizado”. Mas Lenina sente repugnância pela mulher envelhecida. Então Bernard decide levar John e Linda com eles para Londres. O Diretor fica horrorizado ao ver a decrépita Linda e ao ser chamado de “pai” por John.
Devido à vergonha, o Diretor se demite. Linda provoca repulsa em todos, mas John (o Selvagem) vira o centro das atenções, todos em Londres ficam curiosos para vê-lo. Já Linda, finalmente, pode fugir da realidade ao tomar o soma, o qual:
proporcionava um esquecimento perfeito, e, se o despertar era desagradável, não o era intrinsecamente, mas apenas em comparação com as alegrias desfrutadas. O recurso era tornar contínua a fuga. Avidamente, ela reclamava doses cada vez mais fortes, cada vez mais frequentes. O Dr. Shaw a princípio hesitou, depois consentiu que tomasse quanto quisesse. Linda chegou a tomar vinte gramas por dia.
John é apresentado ao novo mundo, mas se recusa a tomar soma. Passa a criticar aquela sociedade. Já Lenina fica interessada em John, que é extremamente bonito. Além disso, Helmholtz e o Selvagem logo se simpatizam um com o outro, a ponto de se tornarem amigos íntimos e terem longas conversas, inclusive sobre literatura. Bernard sente ciúme dessa amizade. Ingere soma para tentar fugir do ciúme, mas em vão.
John confessa seu amor por Lenina. Mas ele se revolta ao perceber que Lenina só quer sexo com ele: “— Prostituta! — urrou. — Prostituta! Impudente cortesã!”. Após esse episódio, John recebe uma ligação: Linda está morrendo no Hospital de Park Lane para Moribundos:
Era uma peça vasta, clara graças ao sol e à pintura amarela, com vinte leitos, todos ocupados. Linda morria acompanhada — acompanhada e com todo o conforto moderno. O ar era constantemente animado por alegres melodias sintéticas. Ao pé de cada cama, diante do ocupante moribundo, havia um aparelho de televisão. Deixava-se funcionar a televisão, como uma torneira aberta, da manhã à noite. A cada quarto de hora, o perfume dominante na sala era automaticamente mudado.
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Com a morte da mãe, John sofre e chora, o que provoca esta reação na enfermeira:
A enfermeira estava sem saber o que fazer, olhando ora a figura ajoelhada ao pé da cama (que exibição escandalosa!), ora (pobres crianças!) os gêmeos que tinham interrompido o brinquedo de zipfurão e, do outro extremo da sala, olhavam embasbacados, com os olhos esbugalhados e as narinas abertas, a cena chocante que se desenrolava junto ao Leito 20. Deveria falar-lhe? Procurar despertar nele o senso de decoro? Lembrar-lhe onde se achava? O prejuízo fatal que poderia causar àqueles pobres inocentes? Destruindo assim todo o saudável condicionamento deles para a morte, com aquele repugnante alarido — como se a morte fosse uma coisa horrível, como se alguém tivesse tanta importância! Isso poderia dar-lhes as ideias mais desastrosas sobre o assunto, desorientá-los e fazê-los reagir de modo inteiramente errado, completamente antissocial. Deu um passo à frente e tocou-lhe no ombro.
O Selvagem acaba promovendo um tumulto no hospital, dizem que ele enlouqueceu. O “louco” diz estas verdades:
— Mas vocês gostam de ser escravos? — dizia o Selvagem quando eles entraram no Hospital. Seu rosto estava rubro, seus olhos chamejavam de ardor e indignação. — Gostam de ser bebês? Sim, bebês, choramingas e babões — acrescentou, exasperado com aquela estupidez bestial, a ponto de lançar injúrias contra os que viera salvar. As injúrias escorregavam sobre a crosta de estupidez espessa; eles o encaravam com uma expressão atônita de ressentimento embrutecido e sombrio. — Sim, babões — vociferou o Selvagem. A dor e o remorso, a compaixão e o dever, tudo estava agora esquecido e de algum modo absorvido num ódio intenso e irresistível àqueles monstros menos que humanos. — Vocês não querem ser livres, ser homens? Nem sequer compreendem o que significa ser homem, o que é a liberdade? — A raiva tornava-o um orador fluente, as palavras ocorriam-lhe com facilidade, em catadupas. — Não compreendem? — insistiu, mas não obteve resposta. — Pois bem! Então — prosseguiu em tom feroz — então eu vou ensiná-los; vou obrigá-los a ser livres, queiram ou não queiram! — E, abrindo uma janela que dava para o pátio interno do Hospital, pôs-se a atirar para fora, aos punhados, as caixinhas de comprimidos de soma.
Helmholtz e Bernard vão para o hospital, onde John está jogando fora pela janela caixinhas de comprimidos de soma, provocando agitação geral, e policiais com pulverizadores “espalharam no ar densas nuvens de vapores de soma”. Por fim, controlado o tumulto, a polícia leva John, Helmholtz e Bernard.
Desiludido com o “admirável mundo novo”, John (o Selvagem) decide se isolar em um farol abandonado. Logo chama a atenção, pois se autoflagela com um açoite, e a Rádio Horário aparece para ouvir algumas palavras do Selvagem. O repórter acaba recebendo um pontapé no traseiro.
Isso vira notícia, mais repórteres vão para lá. São do Times de Nova Iorque, do Continuum Quadridimensional de Francforte, do Monitor da Ciência Fordiana e do Espelho dos Deltas. Tudo se complica quando o fotógrafo Darwin Bonaparte registra, às escondidas, o cotidiano do Selvagem para fazer um filme chamado O Selvagem do Surrey:
e podia ser visto, ouvido e sentido em todas as salas de cinema sensível de primeira ordem da Europa Ocidental. O efeito produzido pelo filme de Darwin Bonaparte foi imediato e enorme. Na tarde que se seguiu à apresentação ao público, a solidão rústica de John foi subitamente violada por um enxame de helicópteros.
O sucesso faz uma multidão voar de helicóptero até o Selvagem. Passam a tratá-lo como a um animal de circo. Enfim, atormentado e infeliz, John comete suicídio por enforcamento para fugir do “admirável mundo novo”.
Características da obra Admirável mundo novo
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Estrutura
O romance possui 18 capítulos.
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Gênero literário
Admirável mundo novo é do gênero narrativo, ou seja, conta uma história, em forma de prosa, a qual apresenta personagens, enredo, tempo e espaço. Aldous Huxley é um autor modernista, e seu livro apresenta fluxo de consciência (evidenciação do universo interno do personagem) típico de romances desse estilo.
A obra possui caráter distópico (antiutópico, pois mostra uma realidade opressiva e não ideal). A narrativa é pessimista, trágica, faz uma crítica ao totalitarismo e sugere um potencial perigo nos avanços tecnocientíficos, que podem ser utilizados como instrumento de opressão e controle das massas.
Contexto histórico da obra Admirável mundo novo
A narrativa transcorre no ano de 632 d. F. (depois de Ford). Henry Ford foi um industrial estado-unidense. Ele nasceu em 1863 e faleceu em 1947, e fundou a Ford Motor Company. Portanto, a história transcorre no século XXVI. Nesse contexto histórico fictício, Ford é misticamente reverenciado por todos.
O planeta é controlado pelo Estado Mundial, com a ajuda da ciência e da tecnologia. Nessa realidade, não existe a família nuclear, as pessoas são geradas em incubadoras e levadas à alienação. Já o contexto de produção da obra publicada em 1932 está relacionado às primeiras décadas do século XX.
Nas primeiras décadas do século XX, estiveram em evidência os avanços tecnocientíficos: o avião, os automóveis, a radiofonia, a televisão, a penicilina, a teoria da relatividade de Einstein e as teorias psicanalíticas de Freud. Acho que tudo isso serviu de estímulo para Huxley. O autor deve ter refletido sobre as consequências de tal evolução.
Já no campo político, havia o seguinte contexto: disputa entre as grandes potências europeias, Revolução Russa de 1917, Primeira Guerra Mundial (1914-1918), Tratado de Versalhes (acordo de paz de 1919, que foi bastante severo com a Alemanha), ascensão do fascismo na Itália e do nazismo na Alemanha. Esse clima também parece ter servido de inspiração para Huxley, o qual imaginou um estado totalitário do futuro.
Relação entre Admirável mundo novo e 1984
Tanto o livro Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, quanto o romance 1984, de George Orwell, são obras distópicas, pois mostram uma realidade opressora e não ideal. O livro de Huxley foi publicado, pela primeira vez, em 1932. Já 1984 foi publicado, pela primeira vez, em 1949.
Em Admirável mundo novo, temos o Estado Mundial, totalitarista, pois controla a vida de todos por meio da procriação artificial, do condicionamento de casta e do soma, a droga que permite que todos fujam da realidade e não a questionem. Na obra de Huxley, cuja história se passa no século XXVI, em um futuro muito distante, a opressão atinge um nível de refinada sutileza, já que o controle é feito pela ciência e sem violência física.
Já o romance de Orwell fala de um futuro próximo, ou seja, o ano de 1984 (agora, para nós, é passado), em que todos são controlados pelo Grande Irmão (Big Brother), uma espécie de entidade onipresente. Todas as casas têm uma tela por meio da qual todos são vigiados, além de receberem a propaganda do Partido.
As pessoas são estimuladas a denunciar os rebeldes. Há tortura, manipulação da verdade e da História. Tal realidade é bem mais próxima do que a que vivemos hoje, tecnológica e politicamente falando. Afinal, cada vez mais somos vigiados por câmeras e telas, e controlados por notícias falsas e manipulação da verdade.
A realidade de Orwell também está mais próxima das ditaduras do século XX, marcadas pela repressão, violência e vigilância: tanto as ditaduras de viés comunista quanto as de viés fascista. Assim, o autor apresenta menos recursos tecnocientíficos de controle do que os apontados por Huxley.
Na obra de Orwell, o personagem principal é Winston Smith, que trabalha no Ministério da Verdade (uma ironia do autor, pois tal ministério só divulga mentiras, ou melhor, controla e manipula a verdade). A ação se passa no estado totalitário de Oceania. A rebeldia de Winston leva-o à tortura física e psicológica, de forma a torná-lo obediente.
Ambos os romances são geniais. Os autores tentaram prever o que seria o futuro da humanidade. E aliaram o autoritarismo estatal à evolução tecnocientífica. O resultado só podia ser uma realidade assustadora. E o pior de tudo é que a ficção criada por esses autores parece cada vez mais próxima de nossa realidade.
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Filmes sobre Admirável mundo novo
As duas adaptações do livro de Aldous Huxley foram feitas para a televisão estado-unidense, sendo elas:
- Admirável mundo novo (1980) — direção de Burt Brinckerhoff;
- Admirável mundo novo (1998) — direção de Leslie Libman e Larry Williams.
Aldous Huxley, autor de Admirável mundo novo
O escritor britânico Aldous Huxley nasceu em 26 de julho de 1894, em Godalming, na Inglaterra. Era integrante de uma família tradicional, mas que valorizava a intelectualidade. Mais tarde, foi estudante de Eton (famoso colégio). Tinha 16 anos quando foi acometido por uma doença oftalmológica que quase levou sua visão.
Ingressou em Oxford (famosa universidade), onde se formou em Literatura Inglesa, em 1915. Durante a Primeira Guerra Mundial, foi dispensado devido à sua deficiência visual. Trabalhou como jornalista e crítico teatral. Conheceu a França e morou na Itália. Decidiu morar nos Estados Unidos, para onde se mudou em 1937.
Ali, escreveu roteiros para o cinema e experimentou, na década de 1950, a mescalina e o LSD, drogas da moda para intelectuais da época que buscavam expandir a consciência. Foi acometido por um câncer de laringe em 1960. Em seu leito de morte, pediu à esposa para lhe injetar LSD e morreu sob efeito dessa droga em 22 de novembro de 1963, em Los Angeles, nos Estados Unidos.
Créditos da imagem
Fontes
EASTERN CONNECTICUT UNIVERSITY. British Modernism. Disponível em: https://www.easternct.edu/speichera/understanding-literary-history-all/british-modernism.html.
HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. Tradução de Vidal de Oliveira e Lino Vallandro. 5. ed. Porto Alegre: Globo, 1979.
PAVLOSKI, Evanir. Admirável mundo novo e A ilha: entre o pesadelo e o idílio utópico. 2012. Tese (Doutorado em Estudos Literários) – Faculdade de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2012.
SCHMITZ, Erik Dorff. Possessão, histeria, política e religião: revisionismo histórico-literário em Os demônios de Loudun, de Aldous Huxley. 2024. Tese (Doutorado em Literatura) – Centro de Comunicação e Expressão, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2024.