Utilitarismo

O utilitarismo é uma ética consequencialista inventada nos séculos XVIII e XIX e o seu critério principal é o bem-estar das pessoas humanas e não humanas.

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O utilitarismo é uma corrente filosófica que defende a ideia de que as ações morais dos indivíduos devem estimular o bem-estar, a felicidade, os interesses ou as preferências da população. Nesse sentido, defende que a moralidade, a política e a economia devem promover o máximo de felicidade e bem-estar para o maior número de indivíduos.

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O utilitarismo foi criado, desenvolvido e popularizado por pensadores como Adam Smith, Jeremy Bentham e John Stuart Mill. Atualmente, está na raiz de movimentos sociais em defesa do direito dos animais e dos interesses econômicos dos mais pobres, conforme o utilitarismo de preferências defendido por Peter Singer.

Leia também: Estado de bem-estar social — modelo que visa à redução das desigualdades sociais

Tópicos deste artigo

Resumo sobre utilitarismo

  • O utilitarismo é uma teoria moral que teve origem no pensamento inglês dos séculos XVIII e XIX.
  • Segundo o utilitarismo, uma ação é correta se estiver conforme o princípio da utilidade.
  • O princípio da utilidade foi formulado pelo filósofo inglês Jeremy Bentham (1748-1832), que também era um economista e jurista teórico, e reformulado por John Stuart Mill.
  • O utilitarismo é uma ética consequencialista porque avalia o valor moral das ações humanas com base nas consequências de um ato e defende os melhores resultados para o bem-estar.
  • O utilitarismo do filósofo australiano Peter Singer defende o direito dos animais e o uso do altruísmo eficaz para maximizar o impacto positivo das nossas escolhas.

O que é utilitarismo?

Conceito de utilitarismo em fundo verde. [imagem_principal]

O utilitarismo é uma teoria moral que teve origem no pensamento inglês dos séculos XVIII e XIX. Além de ter um lugar importante na história da ética, o utilitarismo foi desdobrado em correntes do pensamento social, político e econômico.

Segundo o utilitarismo, uma ação é correta se estiver conforme o princípio da utilidade. E uma ação segue o princípio da utilidade se, e somente se, a sua realização produzir mais prazer ou felicidade, ou se prevenir uma maior quantidade de dor ou infelicidade, do que qualquer outra alternativa possível. Em vez de “prazer” ou “felicidade”, a palavra “bem-estar” é apropriada também. Para o utilitarismo, o valor das consequências de uma ação é determinado apenas pelo bem-estar dos indivíduos interessados ou envolvidos nessa ação.

Características do utilitarismo

O utilitarismo é uma teoria moral caracterizada pela tentativa de coordenar e avaliar com precisão as ações morais. Existem muitos tipos de utilitarismo, mas todos possuem três características fundamentais.

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A primeira característica é a definição de um critério do bem e do mal, o qual pode variar em termos de prazer, bem-estar, felicidade, interesses ou preferências de pessoas humanas ou não humanas.

A segunda característica é um imperativo moral: tomar decisões para maximizar aquilo que é definido como o bem e minimizar o seu contrário.  A terceira característica fundamental do utilitarismo, graças ao critério inicial, é a utilização de uma regra de avaliação do valor moral das ações. 

Segundo o utilitarismo, a correção de uma ação depende inteiramente do valor das suas consequências. É por isso que o utilitarismo é também considerado uma teoria moral consequencialista. Isso se explica pela tentativa do utilitarismo de transformar a ética em uma ciência positiva da conduta humana, algo que fosse tão exato quanto a matemática. Essa característica é fundamental e faz do utilitarismo uma manifestação da corrente filosófica positivista, muito inspirada nos métodos e conceitos das ciências naturais dos séculos XVIII e XIX.

Outro aspecto importante do utilitarismo é a substituição da consideração do fim, derivado da natureza metafísica do homem, conforme Aristóteles, pela consideração dos móveis que levam o ser humano a agir. Desse modo, o utilitarismo está vinculado à tradição hedonista, que vê no prazer (ou na falta dele) a principal motivação dos seres vivos em geral.

No entanto, e aqui encontramos outra dimensão do utilitarismo, o caráter intersubjetivo do prazer é o que importa. O utilitarismo tenta conciliar a utilidade individual e a utilidade geral, o interesse privado e o público, o que pode ser resumido pela fórmula “a maior felicidade possível, compartilhada pelo maior número possível de pessoas”.

Refletindo sobre essa fórmula, John Stuart Mill concluiu que a autoridade da sociedade sobre o indivíduo deveria ser claramente limitada. Visando estabelecer o justo limite da soberania do indivíduo sobre si mesmo, Mill afirma que o único objetivo a favor do qual se possa exercer legitimamente pressão sobre qualquer membro de uma comunidade civilizada, contra a vontade dele, consiste em prevenir danos a terceiros. Não basta que se leve em conta o próprio bem, físico ou moral, da pessoa.  Essa fórmula, aliás, foi aceita como um dos princípios de todo o liberalismo moderno até hoje.

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Por fim, destacamos uma característica final do utilitarismo: a sua associação estreita com as teorias nascentes da economia. Alguns dos fundadores da economia — Adam Smith (1723-1790), Malthus (1766-1834) e David Ricardo (1772-1823) — influenciaram o utilitarismo ou foram utilitaristas de fato, compartilhando o espírito positivo e reformador dessa corrente de pensamento. 

Como foi visto, de forma mais ampla, o utilitarismo é um movimento de pensamento caracterizado pela reflexão sobre o papel dos interesses individuais na ordem social e na mudança social, misturando disciplinas como filosofia, sociologia, economia e teoria jurídica.

Leia também: Diferença entre ética e moral

O que o utilitarismo defende?

O que o utilitarismo defende, em geral, é que o resultado das ações humanas seja ótimo para todos os interessados, inclusive todos os seres sencientes em alguns casos.  Nesse sentido, o utilitarismo do filósofo contemporâneo Peter Singer defende o direito dos animais e o mesmo pensador é um ativista do altruísmo eficaz, um movimento social que busca ampliar as formas mais eficazes de beneficiar os outros, com o objetivo de maximizar o impacto positivo de cada ação, doação ou escolha de profissão ou plano de carreira.

No campo político e social, o utilitarismo defende reformas que poderiam aumentar o bem-estar e a felicidade dos seres humanos. Nesse sentido, o utilitarismo defende princípios liberais, como a liberdade individual, o direito à propriedade privada e a não intervenção do Estado na vida privada das pessoas. Também propõe que é uma responsabilidade individual encontrar o limite entre o que é possível dizer ou fazer e o que é necessário respeitar, sempre respeitando a vida ou a vida humana.

Principais pensadores do utilitarismo

Jeremy Bentham, um dos principais pensadores do utilitarismo.
Jeremy Bentham, um dos principais pensadores do utilitarismo.

Além de Jeremy Bentham e John Stuart Mill, as principais figuras do utilitarismo são Adam Smith, David Ricardo, James Mill, Alfred Marshall, Henry Sidgwick e Herbert Spencer. No século XX, o economista húngaro John C. Harsanyi retomou e reformulou o utilitarismo de várias maneiras.

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O filósofo australiano Peter Singer é um dos principais pensadores do utilitarismo atualmente. Peter Singer é adepto do utilitarismo das preferências, uma teoria moral de acordo com a qual o bem consiste na satisfação das preferências da população, e a correção de uma ação depende direta ou indiretamente de tal ação ser produtora dessa satisfação na realidade.

Peter Singer, um dos principais pensadores do utilitarismo atualmente.[1]
Peter Singer, um dos principais pensadores do utilitarismo atualmente.[1]

Obras sobre utilitarismo

Além das clássicas Introdução aos princípios da moral e da legislação e Utilitarismo, respectivamente de Bentham e Mill, também podemos citar A Fábula das Abelhas ou Vícios privados, Benefícios públicos, de Mandeville, que argumenta que interesses egoístas e individuais, como o luxo e a riqueza, classificados como vícios privados, podem trazer benefícios públicos porque impulsionam o comércio e a prosperidade das pessoas. Também merecem destaque os principais livros do filósofo utilitarista Peter Singer, como Ética Prática, Libertação Animal e Quanto custa para salvar uma vida?

Leia também: Social-democracia — modelo que busca promover a justiça social no capitalismo

Quem criou o utilitarismo?

O utilitarismo foi criado e reconhecido como uma escola filosófica apenas nos anos finais do século XVIII. Os principais e mais destacados criadores desse utilitarismo clássico foram Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806-1873), sendo o primeiro considerado o fundador do utilitarismo e o segundo o mais importante reformador dessa corrente filosófica.

Apesar disso, os preceitos e fundamentos do utilitarismo remontam ao pensamento da filosofia grega do período helenístico, com o filósofo Epicuro, que concebia o prazer como algo valioso e útil.

As ideias centrais do utilitarismo também podem ser encontradas na obra de pensadores iluministas, como David Hume e Adam Smith. A noção de “mão invisível” do mercado, uma ideia clássica de Adam Smith, acredita que o confronto dos interesses particulares favorece o interesse geral, a ordem e o progresso social. Mesmo sem ter usado o nome, essa ideia já contém a mesma lógica do princípio de utilidade, formulado por Bentham, e do princípio da maior felicidade, defendido por Mill. 

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Utilitarismo no dia a dia

O utilitarismo é uma teoria ética, política e social que está no dia a dia, por exemplo, quando ouvimos alguém dizer o seguinte ditado: “a liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do outro”. Esse ditado obedece a um clássico raciocínio utilitarista de que, para maximizar a felicidade e o bem-estar geral, precisamos limitar as ações individuais.

Criança sendo vacinada por agente de saúde, uma prática ligada ao utilitarismo
Campanhas de vacinação fazem parte do nosso dia a dia e são formuladas obedecendo princípios utilitaristas.[2]

Outros exemplos do utilitarismo no dia a dia podem ser observados na saúde pública. Por exemplo, a triagem em hospitais e a escolha de tratamentos médicos. Quando há mais pacientes do que recursos disponíveis, médicos fazem uma análise do tipo custo-benefício, calculando a máxima eficácia do uso dos recursos disponíveis, com o objetivo de salvar o maior número possível de vidas.

Durante campanhas de vacinação, em situação de escassez, grupos prioritários são definidos para serem imunizados, o que maximiza a proteção aos vulneráveis. No caso da distribuição de órgãos para transplante, a preferência na fila é dada para os pacientes com maior probabilidade de sucesso no transplante ou expectativa de vida.

Em todos esses casos, os procedimentos são feitos observando o princípio utilitarista max-min: maximizar os resultados mesmo com o mínimo de recursos. Desse modo, busca-se não apenas o benefício do paciente individual, mas também o melhor impacto para toda a população e o sistema de saúde.

Exercício resolvido sobre utilitarismo

(Unesp)

Tradição de pensamento ético fundada pelos ingleses Jeremy Bhentam e John Stuart Mill, o utilitarismo almeja muito simplesmente o bem comum, procurando eficiência: servirá aos propósitos morais a decisão que diminuir o sofrimento ou aumentar a felicidade geral da sociedade. No caso da situação dos povos nativos brasileiros, já se destinou às reservas indígenas uma extensão de terra equivalente a 13% do território nacional, quase o dobro do espaço destinado à agricultura, de 7%. Mas a mortalidade infantil entre a população indígena é o dobro da média nacional e, em algumas etnias, 90% dos integrantes dependem de cestas básicas para sobreviver. Este é um ponto em que o cômputo utilitarista de prejuízos e benefícios viria a calhar: a felicidade dos índios não é proporcional à extensão de terra que lhes é dado ocupar.

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(Veja, 25.10.2013. Adaptado.)

A aplicação sugerida da ética utilitarista para a população indígena brasileira é baseada em

A) uma ética de fundamentos universalistas que deprecia fatores conjunturais e históricos.

B) critérios pragmáticos fundamentados em uma relação entre custos e benefícios.

C) princípios de natureza teológica que reconhecem o direito inalienável do respeito à vida humana.

D) uma análise dialética das condições econômicas geradoras de desigualdades sociais.

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E) critérios antropológicos que enfatizam o respeito absoluto às diferenças de natureza étnica.

 Resposta: B.

A aplicação sugerida da ética utilitarista para a população indígena brasileira é baseada em critérios pragmáticos fundamentados em uma relação entre custos e benefícios. Como o próprio texto-base diz: “o utilitarismo almeja muito simplesmente o bem comum, procurando eficiência: servirá aos propósitos morais a decisão que diminuir o sofrimento ou aumentar a felicidade geral da sociedade”. Nesse caso, o cálculo de custos e benefícios proposto pelo utilitarismo não traz como resultado a felicidade aos povos indígenas. É importante salientar a proximidade dos significados das palavras “pragmático” e “eficiência” como uma chave para a resposta da questão.

Créditos das imagens

[1] Wikimedia Commons

[2] Mohammed al-wafi / Shutterstock

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Fontes

AUDARD, C. Utilitarismo. In: CANTO-SPERBER, M. Dicionário de ética e filosofia moral. Traduções de Ana Maria Ribeiro-Althoff et. al. São Leopoldo: Editora UNISINOS, 2007.

BENTHAN, Jeremy. Uma introdução aos princípios da moral e da legislação. Tradução de Luiz João Baraúna. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (Coleção Os Pensadores).

MANDEVILLE, Bernard de. A Fábula das Abelhas ou Vícios Privados, Benefícios Públicos, São Paulo: Editora Unesp, 2017.

MILL, J. S. Utilitarismo. Tradução de Pedro Galvão. Porto: Porto Editora, 2005.

MILL, J. S. Liberdade. Trad. Eunice Ostrensky. São Paulo, Martins Fontes, 2000, Ibid., p. 197., p. 143)

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SINGER, Peter. Ética Prática. Tradução de Jefferson Luiz Camargo. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002. (Coleção Biblioteca Universal).

SINGER, Peter. Vida Ética: os melhores ensaios do mais polêmico filósofo da atualidade. Traduçãode Alice Xavier. Rio de Jeneiro: Ediouro, 2002.

SINGER, Peter. Um Só Mundo: A Ética da Globalização. Tradução de Adail Ubirajara Sobral. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

SINGER, Peter. Libertação Animal. Tradução de Marly Winckler e Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

SINGER, Peter. Quanto Custa Salvar Uma Vida?: agindo para eliminar a pobreza mundial. Tradução de Márcio Hack. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.

Escritor do artigo
Escrito por: Rafael Pereira da Silva Mendes Licenciado e bacharel em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atuo como professor de Sociologia, Filosofia e História e redator de textos.
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MENDES, Rafael Pereira da Silva. "Utilitarismo"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/utilitarismo.htm. Acesso em 03 de fevereiro de 2026.
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