ONU aprova novo mapa-múndi; entenda o que muda nessa nova representação
ONU aprova novo mapa-múndi; entenda o que muda nessa nova representação
Intitulada "Corrija o mapa", a proposta tem o objetivo de fazer uma representação mais justa de determinadas regiões do planeta.
Em 10/09/2026 11h22
, atualizado em 10/09/2026 11h22
A+
A-
Ouça o texto abaixo!
1x
A Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou um novo modelo de mapa-múndi, Equal Earth, que ajusta a forma com que o planeta é representado em mapas, com 164 votos favoráveis. O único país a votar contra o novo modelo foram os Estados Unidos.
Não pare agora... Tem mais depois da publicidade ;)
A proposta foi intitulada como "Corrija o mapa" e tem o objetivo de representar de forma mais fiel as proporções de determinadas regiões do planeta, baseado em dados científicos. O projeto atua como uma reparação histórica, já que o mapa utilizado é do século XVI e amplia massas de terra distantes da linha do Equador, além de reduzir regiões como África, América Latina e Sul da Ásia.
Robson Lucas, professor de geografia do Colégio Sigma, explica que o modelo anterior é utilizado desde 1569 e enxerga o mundo pelas lentes de Gerardus Mercator. O mapa é uma projeção cilíndrica conforme feita para a navegação loxodrômica da expansão mercantil europeia, que preserva ângulos, em contrapartida, distorce áreas.
O modelo Equal Earth foi desenvolvido em 2018 por Bojan Šavrič, Tom Patterson e Bernhard Jenny. Segundo Robson, esse modelo não é somente mais preciso, também é politicamente mais adequado à multipolaridade do século XXI. Seu compromisso é com a área, não com a rota.
A representação "devolve a proporção real das massas continentais e, ao mesmo tempo, corrige o principal defeito de sua antecessora equivalente, a Gall-Peters, que, embora correta em área, era visualmente distorcida em alguns pontos", explica.
O professor aponta que a adoção desse mapa tem três efeitos imediatos pela visão geopolítica:
Não pare agora... Tem mais depois da publicidade ;)
Descentraliza o olhar: tira a Europa do centro visual absoluto e reposiciona o Sul Global em sua dimensão real;
Requalifica o debate: fica impossível discutir crise climática, segurança alimentar, transição energética ou demografia mundial com um mapa que esconde o tamanho real da África e da Amazônia;
Desmonta a narrativa da escassez: quando a África recupera seu tamanho real no mapa, fica evidente seu peso em terras raras, população e biodiversidade. O mapa deixa de esconder o que a geoeconomia já sabe.
Novo mapa-múndi confeccionado pelo projeto Equal Earth e aprovado pela ONU.
Crédito: Equal Earth.
Problema do modelo Mercator
O modelo Mercator paga o preço da fidelidade às porções de terra para representar os ângulos das rotas comerciais do século XVI. "Na cartografia, como na geopolítica, não existe neutralidade. O que você preserva, você prioriza", defende Robson.
Segundo o professor, trazer a visão marcada por uma bússola não é um simples acidente cartográfico, mas reforça uma visão colonialista sobre o planeta, além de cristalizar a arquitetura do sistema-mundo moderno:
Inflou o Norte e apequenou o Sul: a Groenlândia surge equivalente à África, quando o continente africano é, na realidade, muitas vezes maior. Já Europa e América do Norte aparecem como massas centrais e desproporcionais.
Não pare agora... Tem mais depois da publicidade ;)
Naturalizou a periferia: América Latina, África e Sul da Ásia foram visualmente diminuídos por cinco séculos, reforçando a ideia de que são territórios secundários em extensão, recursos e relevância.