"Investir em pesquisa científica é investir em vidas", afirma jovem tetraplégica que recebeu polilaminina

Júlia Magalhães (19) relata rotina de recuperação e desafios após a aplicação da polilaminina, substância desenvolvida pela pesquisadora Tatiana Sampaio

Em 14/07/2026 14h41 , atualizado em 14/07/2026 14h51
Júlia Magalhães
Júlia Magalhães e equipe médica que realizou aplicação da polilaminina. Crédito da Imagem: Foto - Arquivo
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Júlia Magalhães, carioca de 19 anos e moradora da Ilha do Governador (RJ), sonha em fazer o curso superior de Psicologia. Em janeiro deste ano, um grave acidente que ocorreu quando estava a caminho da Barra da Tijuca para se despedir de seus amigos já que se mudaria para Fortaleza, mudou os rumos de sua vida.

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O impacto do acidente a deixou tetraplégica, condição em que ocorre uma paralisia dos movimentos de membros superiores e inferiores, como também do tronco.

Ao Brasil Escola, ela conta que só teve dimensão da gravidade quando acordou no hospital. Percebeu ali que sua vida havia mudado completamente.

Logo no dia seguinte, amigos e familiares iniciou uma busca de tudo que pudesse representar uma chance de recuperação para Júlia. Dessa forma descobriram a pesquisa realizada pela professora Dra. Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracecular da universidade, Tatiana foi responsável por desenvolver a polilaminina. Ela é a versão polimerizada da laminina, proteína naturalmente encontrada na placenta do corpo humano. 

A substância atua na regeneração dos tecidos nervosos e busca estimular o retorno dos movimentos de membros pós lesão na medula espinhal.

Em 16 de fevereiro, Júlia se tornou a 23ª pessoa a receber o tratamento da polilaminina no Brasil e a quarta em seu estado. Segundo ela, desde então, cada pequeno avanço passou a ter um significado enorme.

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Aplicação da polilaminina
Dia da aplicação da polilaminina.
Crédito: Arquivo 

Saiba mais: O que é a medula espinhal, qual sua importância para o corpo humano e quais são as lesões

Tratamento da polilaminina 

Apesar de não serem fáceis, os dias tem se tornado melhores, relata Júlia. Já são quase cinco meses que ela recebeu a aplicação da polilaminina, que foi realizada uma única vez. 

Sua rotina é preenchida por intensas sessões de fisioterapia de segunda a sexta, comandadas pela profissional Danielle Domingues. Além disso, a jovem faz exercícios de bicicleta elétrica, mesa ortostática e fisioterapia de fortalecimento do diafragma, como também acompanhamento psicológico.

Júlia e Danielle, sua fisioterapeuta
Júlia e Danielle, sua fisioterapeuta.
Crédito: Arquivo.

Danielle afirma que a cada semana a equipe observa pequenas vitórias, e quando se olha de maneira geral, visualizam o quanto Júlia já avançou com seu recuperação. A fisioterapeuta reforça a importância desta descoberta histórica para a área da Medicina.

O cansaço físico e emocional são fatores que pesam na realidade de Júlia. Mas, mesmo assim, busca sempre direcionar sua mente para um propósito.

Aprender coisas novas, ajudar pessoas que vivem em situações parecidas e encontrar pequenos objetivos para cada dia tornaram o processo menos doloroso, afirma. "Isso me dá forças para continuar acreditando".

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Entre os maiores desafios, está o da aceitação. "A realidade aparece nos momentos mais simples: quando preciso sair de casa com a ajuda da minha família ou apenas observo a vida acontecendo da varanda. São situações comuns que hoje carregam um significado completamente diferente. Ainda assim, escolho acreditar que cada pequeno avanço vale a pena", conta.

Seu grande sonho era de cursar Piscologia e conhecer a cultura de diferentes países. Apesar deles continuarem, atualmente, Júlia afirma que eles dividem protagonismo com o sonho de voltar a andar.

Para a jovem, a pesquisa da polilaminina vai muito além do tratamento em si, ela representa esperança

"Quando você recebe um diagnóstico que muda completamente a sua vida, é muito fácil acreditar que não existe mais um caminho. Iniciativas como essa mostram que a ciência continua buscando respostas e que ainda existem possibilidades."

Júlia Magalhães
Júlia Magalhães sonha em fazer Psicologia.
Crédito: Arquivo.

Ela acredita que a participação na pesquisa faz a sentir que está contribuindo com algo maior do que sua própria recuperação.

Mesmo que os resultados levem tempo, o conhecimento adquirido pode ajudar outras pessoas que passam pela mesma situação no futuro, afirma."Investir em pesquisa é investir em vidas".

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O afeto e amor dos seus tem sido algo que fortalece toda a jornada de recuperação de Júlia. Ela enfatiza que descobriu algo que jamais se esquecerá, o quanto as pessoas são capazes de amar e demonstrar empatia. O carinho que recebe se tornou uma das maiores forças que encontrou para seguir em frente.

Na rede social, Júlia compartilha cada avanço de seu recuperação. Um espaço que ela mesma a denominou como corrente do bem, de informação, fé e perseverança.

"Houve um tempo em que meu mundo ficou preso no limite dos olhos. Hoje, cada novo movimento é uma forma de ultrapassar esse limite"

Veja também: Após câncer e perda do pai, farmacêutica é aprovada em Medicina pelo Enem no Ceará

Estudo sobre a polilaminina de Tatiana Sampaio

A pesquisadora Dra. Tatiana Sampaio é professora associada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e chefia atualmente o Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular no Instituto de Ciências Biomédicas.

Ela coordena o projeto e estudo que desenvolve a polilaminina, uma proteína sintética inspirada em componentes naturais da matriz celular.

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A investigação se refere à ação dela no processo de regeneração neural, principalmente em casos de lesão na medula espinhal. Sua aplicação é feita de forma única e direta na região lesionada durante o procedimento cirúrgico. O estudo de Tatiana se atém ainda à compreensão sobre o mecanismo de ação da substância. 

Leia também: O que é e para que serve a iniciação científica

Aprovação de estudo clínico pela Anvisa

No dia 5 de janeiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início do estudo clínico para avaliar a segurança da polilaminina no processo de tratamento de trauma medular.

Na ocasião, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, enfatizou que o estudo representa um marco importante para quem sofreu uma lesão medular e também para suas famílias. "Cada avanço científico é sempre uma nova esperança renovada", afirmou.

Na primeira etapa da pesquisa da Anvisa, a polilaminina é utilizada em cinco pacientes voluntários com lesões agudas da medula espinhal torácica entre as vértebras T2 e T10. 

Confira também: Coluna vertebral - Funções, doenças e anatomia 

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Por Lucas Afonso
Jornalista