Incêndio na UFPE afeta pesquisa de tratamento de câncer; conheça a pesquisa de Valécia Costa

Valécia Costa, pesquisadora da UFPE, explica como o incêndio lesou os trabalhos realizados no desenvolvimento de novos tratamentos de câncer, já que os materiais todos foram perdidos.

Em 13/10/2026 13h13 , atualizado em 13/10/2026 19h13
Foto de Valécia Costa, pesquisadora da UFPE
Valécia Costa trabalha com pesquisa há 12 anos. Crédito da Imagem: Foto - Acervo pessoal
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Na última semana, o prédio do Núcleo de Pesquisa em Inovação Terapêutica (Nupit) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) foi atingido por um incêndio. Em meio às perdas causadas pelo incêndio está a pesquisa oncológica de Valécia Costa.

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Formada em Ciências Biológicas - Licenciatura pela UFPE, onde fez o mestrado e doutorado, e é pós-doutoranda em Inovação Terapêutica, Valécia atua na pesquisa oncológica há 12 anos. Seu trabalho na academia investiga novas moléculas com potencial atividade antitumoral, buscando identificar compostos promissores que poderão contribuir para o desenvolvimento de novos tratamentos de câncer.

O incêndio do dia 7 de outubro atingiu todo o primeiro andar do prédio do Nupit, onde eram armazenados os biobancos construídos ao longo de mais de uma década, utilizados na pesquisa de Valécia. O fogo também destruiu os compostos que estavam sendo avaliados, muitos deles em fase final de análise.

A pesquisadora explica que, agora, estão em busca de reconstruir os bancos de células, conversar com parceiros de pesquisas para reaver os compostos que forem possíveis, já que muitos eram inéditos, e dar continuidade às pesquisas com o que é possível realizar.

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Pesquisa oncológica de Valécia Costa

Foi ainda durante a graduação que Valécia teve seu primeiro contato com a pesquisa, através da iniciação científica. Nesse caminho, ela se encontrou e descobriu qual direção profissional queria seguir. Após a graduação, fez mestrado e doutorado em Inovação Terapêutica, mesma área de seu pós-doutorado.

Sua pesquisa tem por intuito investigar novas moléculas que atuam no tratamento contra o câncer. "Sabemos que, na clínica, a maioria dos antineoplásicos utilizados acaba não sendo tão efetiva quanto deveria, e obter novos compostos que possam ser incluídos nesse leque existente é de suma importância", explica. 

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Os antineoplásicos são fármacos utilizados no tratamento de câncer, que têm o objetivo de destruir ou inibir o crescimento das células tumorais.

Em seu trabalho, Valécia reúne mais de 50 alunos que analisam moléculas de diferentes tipos de câncer em busca de investigar como os compostos agem e identificar quais apresentam resultados promissores para avançar nas próximas etapas da pesquisa.

Esses estudos são realizados com linhagens de células tumorais, ou seja, células mantidas e cultivadas em laboratório. Entre as moléculas dos bancos da pesquisa estavam as de câncer de pâncreas, fígado, pulmão, mama, próstata, glioblastoma e colangiocarcinoma, que é o câncer das vias biliares.

O biobanco do Nupit chegou a reunir mais de 60 linhagens celulares.

A pesquisadora ainda trabalha com amostras de pacientes de outro projeto, de caráter mais clínico. Neste programa, os estudos buscam identificar sinais biológicos, os biomarcadores, que auxiliem no diagnóstico, na avaliação da evolução da doença e no acompanhamento da resposta ao tratamento.

Valécia Costa durante pesquisa na UFPE
Valécia Costa durante pesquisa na UFPE.
Crédito: Acervo pessoal.

Como são construídos os biobancos?

Os biobancos são reservatórios de materiais biológicos armazenados para utilização em pesquisas. O banco utilizado na pesquisa de Valécia foi formado a partir de compras adquiridas por meio de projetos de pesquisa.

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Essas compras de células diferenciadas, de diferentes tipos de cânceres, são feitas de revendedores de fora do país ou por meio do Banco de Células do Rio de Janeiro, o BCRJ. 

Já células de pacientes não são compradas; é feito um processo de retirada das células tumorais de pacientes em cirurgia de hospitais parceiros da universidade, como o Hospital das Clínicas e outros hospitais aprovados por meio do comitê de ética. Essas amostras são únicas, uma vez que cada paciente tem uma célula diferente.

É válido lembrar que os bancos de células da UFPE foram construídos por mais de uma década.

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Pesquisa perdida no incêndio da UFPE

No incêndio do dia 7 de outubro, na UFPE, foram perdidas todas as amostras dos bancos de célula do Nupit, tanto as adquiridas por compra quanto por coleta de pacientes. Além de equipamentos diversos, em que os projetos em atividade dependiam diretamente.

Valécia explica que, mesmo que a pesquisa tenha obtido alguns resultados prévios, eles não serão suficientes para concluir nenhum projeto. "Como temos prazo, por exemplo, um aluno de mestrado tem dois anos para defender (a dissertação). Se passa a metade de um ano para obter aqueles dados, você não vai conseguir concluí-los. As pesquisas não serão concluídas em tempo hábil", aponta.

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A pesquisadora acrescenta que talvez seja possível realizar as pesquisas em outro lugar, mas que ainda é tudo muito incerto. Segundo a pesquisadora, pesquisas que dependem de quantidade de pacientes são inviáveis. Mesmo que leve seis meses a mais para ser concluída, esse período não é suficiente para acumular 100 ou 200 pacientes no estudo.

"Em seis meses, vai chegar a, no máximo, quatro ou cinco pacientes, e, a nível científico, isso não é uma resposta que a gente precisa. Pensando no banco de células compradas, mesmo que a gente compre novamente, o prazo de entrega é demorado, porque a maioria das compras são internacionais, digamos que uma célula demora quarenta e cinco, noventa dias para chegar. Existem ainda os reagentes para manter uma célula viva, porque não é só ter célula; a gente precisa do reagente para mantê-la ali, e todos eles foram perdidos, então o prazo de chegada demora demais. Mesmo que o pós-graduando adie por seis meses, a gente não consegue dizer com sinceridade se esse período vai ser um prazo em que todos os alunos conseguirão concluir", explica Valécia.

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Por Jade Vieira
Jornalista