Estados Unidos realizam ataques à Venezuela; especialistas explicam as consequências das ações

Internacionalistas apontam o que a captura de Nicolás Maduro representa para a situação atual da Venezuela.

Em 03/01/2026 20h09 , atualizado em 04/01/2026 10h12
Foto de Nicolás Maduro. Texto: título da notícia
Maduro foi eleito presidente da Venezuela pela priemira vez em 2013. Crédito da Imagem: Creative Commons Attribution-Share Alike 2.0
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Na madrugada deste sábado, 3 de janeiro, os Estados Unidos realizaram um ataque à Venezuela. A ação do governo estadunidense foi confirmada pelo presidente Donald Trump, bem como a captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro.

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Há alguns meses os Estados Unidos vinham realizando operações e ataques no Mar do Caribe, na costa da Venezuela, com a justificativa de combater o narcotráfico.

Em coletiva realizada nesta tarde, Trump afirmou que o governo estadunidense governará a Venezuela até que seja realizada “uma transição segura, adequada e criteriosa”, nas palavras do presidente americano.

Durante a coletiva, Trump também falou sobre a economia petrolífera na Venezuela. Em sua fala ele diz que a exploração de petróleo no país latino-americano é fracassada e que grandes empresas estadunidenses entrarão no país para explorar o recurso natural.

Segundo Giovanni Hideki Chinaglia Okado, professor de Relações Internacionais da PUC Goiás e do Instituto Diplomacia, esse ataque era anunciado e simboliza o fracasso do multilateralismo na ordem global. Esse ataque se configura como um crime de agressão, de acordo com o Estatuto de Roma.

Giovanni explica que esse crime se configura pelo emprego de forças armadas contra soberania, integridade territorial e independência política. O ataque realizado nesta madrugada transmite uma mensagem clara, os Estados Unidos utilizarão as forças armadas de forma unilateral contra seus inimigos.

Leia também: entenda o que é o narcotráfico

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Donald Trump
Trump realizou uma coletiva na tarde deste sábado, 3 de janeiro

Consequências do ataque à Venezuela

Diante do ataque realizado na Venezuela e a nova Estratégia de Segurança Nacional, divulgada pelo governo Trump em dezembro, Giovanni espera um maior intervencionismo dos Estado Unidos na América Latina, inclusive militar.

Ao que se refere à América Latina, o documento aponta claramente que os Estados Unidos “restaurarão a proeminência no “hemisfério ocidental” por meio do reforço do “Corolário Trump” à Doutrina Monroe”, esclarece o internacionalista.

Apesar do professor acreditar que outros países, como a Colômbia possam ser vítimas da intervenção estadunidense, o Brasil é um alvo pouco provável. Apesar disso, é possível que seja afetado por um aumento do fluxo migratório de venezuelanos, seja pelo prolongamento do conflito, seja pelo agravamento das tensões políticas.

No conflito, possivelmente, o Brasil deve assumir o papel de mediador, diretamente com os Estados Unidos, ou em organizações e coalizões internacionais.

Giovanni destaca que a América Latina não está, necessariamente, no centro da competição geopolítica atual, de forma que as reações negativas de grandes potências ao ataque são protocolares. Além de que esse ataque é um sintoma do fracasso do multilateralismo, não causa.

É importante também destacar que o ataque implica na segurança energética, já que a Venezuela detém uma das maiores reservas de petróleo do mundo. Assim, o controle estadunidense dessas reservas garante uma posição de privilégio aos Estados Unidos perante à ordem energética global das próximas décadas, uma vez que cresce a demanda por energia.

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Giovanni Hideki e Bruna Amuy
Giovanni Hideki e Bruna Amuy, respectivamente.
Crédito: Divulgação

Estados Unidos x Venezuela

A Venezuela tem sido apresentada como uma ameaça aos Estados Unidos desde a eleição de Hugo Chavez, em 1999. Chavez adotou uma política de nacionalização do petróleo, que antes era o maior produto importado pelo país norte-americano.

Bruna Amuy, doutoranda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), explica que a eleição de Maduro, em 2013, foi seguida por sanções estadunidenses, já que o discurso anti-imperialista foi mantido. As sanções pioraram a crise política na Venezuela e a escassez de produtos.

É nesse cenário que os governos de Donald Trump mantêm a política externa intervencionista. Em seu primeiro mandato, Trump impôs o bloqueio de mercados financeiros internacionais, o que causou hiperinflação e o colapso da economia local.

No segundo mandato, Maduro ganha o título de líder do narcotráfico para justificar e legitimar a sanções e abrir espaço para ações de força, destaca Bruna. Apesar disso, essa retórica não se sustenta, já que essa é uma continuidade do que se observou no Iêmen, na Síria e no Irã desde o retorno de Trump à Casa Branca.

Diante desse cenário, Giovanni destaca que “no atual governo, as definições de inimizades ou amizades são ideologizadas e personalistas, não correspondendo, necessariamente, aos interesses nacionais da grande potência”.

Saiba mais sobre o governo de Donald Trump

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Situação atual da Venezuela

Marcada por uma crise econômica, insatisfação crescente com o governo de Nicolás Maduro e falhas tentativas de promover uma mudança no regime, a Venezuela enfrenta uma crise de legitimidade e representatividade desde a década passada.

Uma vitória questionada de Maduro nas eleições para presidente de 2024 devido a falta de divulgação das atas, além da autodeclaração de Juan Guaidó como presidente, entre 2019 e 2023, manteve o país em uma atmosfera de divisão nacional. Apesar disso, a oposição não se demostra capaz de superar a estrutura chavista, é o que aponta Giovanni.

A retirada de Maduro do poder não altera o cenário polarizado atual, pelo contrário, Giovanni acredita que seja um fator que dificulta a formação de um novo governo. Isso se dá, principalmente, porque não há a definição de um sucessor, bem como existe uma falta de coesão na oposição, dividida entre Edmundo González ou de Marina Corina.

Nesse cenário de falta de liderança, Trump declarou que a Venezuela permanecerá sob administração dos Estados Unidos até encontrar estabilidade política.

“Os processos de democratização do Afeganistão e do Iraque, para citar casos recentes, demonstram que as transições de regime sob a liderança estadunidenses são questionáveis”, afirma Giovanni sobre a intermediação dos Estados Unidos.

Veja mais: entenda a crise na Venezuela

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Por Jade Vieira
Jornalista