Fahrenheit 451 é uma distopia escrita por Ray Bradbury e publicada originalmente em 1953. Esse foi o terceiro livro lido pelo Clube do Livro do Brasil Escola, o qual foi escolhido pelos leitores do grupo em uma batalha que envolvia outras três distopias. Mas e aí? O que achamos? É isso que você vai descobrir mais abaixo! Como um breve spoiler, adianto que: gostamos, mas com ressalvas. rsrs
Leia também: Afinal, o que é o Clube do Livro do Brasil Escola?
Tópicos deste artigo
- 1 - Vale a pena ler Fahrenheit 451?
- 2 - O que você vai encontrar em Fahrenheit 451?
- 3 - Quem escreveu Fahrenheit 451?
- 4 - O que mais chamou atenção em Fahrenheit 451?
- 5 - Afinal, nós gostamos?
- 6 - Live de fechamento do ciclo de leitura de Fahrenheit 451
Vale a pena ler Fahrenheit 451?
Siiiiiim. Esse é um livro que coloco na classificação “Tem que ler antes de morrer”.
Primeiramente, temos que considerar que esse é um dos clássicos quando se fala em distopia. Inclusive, a obra está no que se chama de “Tríade distópica”, que são os três livros tidos como referência quando o assunto é narrativa futurista sombria:
- 1984, de George Orwell;
- Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley; e
- Fahrenheit 451, o qual disputa esse terceiro lugar com Laranja mecânica, de Anthony Burgess (às vezes aparece Fahreinheit, às vezes Laranja mecânica quando se fala da tríade).
Segundamente (essa palavra existe, pode confiar!), esse livro é uma verdadeira ode aos livros. Não sabe o que é ode? Então, ode é como a gente chama uma composição poética para se fazer exaltações. E esse é livro é justamente isto: uma grande declaração de amor aos livros.
Dito isso, caros leitores e leitoras, a obra de Bradbury merece ser lida. Não que ela não possua defeitos, ela tem (falarei deles em algum momento), MAS tem que ler para que você possa ter sua própria experiência com a história.
O que você vai encontrar em Fahrenheit 451?
A história da obra é a seguinte: em um tempo futuro e sombrio, temos uma sociedade imersa em entretenimento vazio e alienação total de tal forma que ela rejeita e destrói os próprios livros, que são vistos como um grande mal social.
Para isso, essa sociedade conta com o Corpo de Bombeiros, que é a instituição responsável por queimar todos os livros que encontrar, receber denúncias de “rebeldes” e investigar obras escondidas. Sim, em vez de apagar incêndios, os bombeiros de Bradbury os causam.
“Queimar era um prazer”.
Essa é a frase de abertura do livro.
A partir dessa premissa (que é bem legal, por sinal), a gente vai conhecer Guy Montag, um bombeiro em certa crise existencial e que está escondendo livros.
A crise de Montag é levada a um novo patamar quando ele conhece Clarice, que lhe faz perguntas perturbadoras o suficiente para que ele decida ir contra o sistema. A partir disso, vamos acompanhar a trajetória desse protagonista em sua própria “odisseia” para encontrar a si mesmo e lutar por aquilo que passa a enxergar.
A trama de Bradbury conta com poucos personagens, mas que são efetivos para construir a mensagem que o autor gostaria de deixar.
Midreld, a esposa de Montag, por exemplo, vem representar a passividade e a futilidade de uma sociedade que optou pela alienação para não sofrer com as dores de ter os olhos abertos pelos questionamentos trazidos pelos livros.
Faber, uma espécie de mentor de Montag nessa jornada, aparece, em um primeiro momento, como um desertor da causa, pois, conformado com a situação, desistira de lutar há muito tempo. Todavia, ele tem em Montag sua última oportunidade de agir e recobrar a própria honra.
Não podemos deixar de mencionar o Capitão Beatty, o grande antagonista da história. Chefe dos bombeiros, Beatty é uma figura contraditória e perversa. Mesmo sendo um grande conhecedor da literatura, ele defende que os livros trazem somente infelicidade e problemas, e nele não há nenhum pesar em fazer tudo o que for possível, inclusive matar, para manter tudo como está.
Por fim, vale menção aos homens-livro. Guardiões das obras clássicas, eles passaram a decorar obras inteiras para que elas não desaparecem com a queima dos livros.
Em um mundo tão desolador como esse, os homens-livros são o fio de esperança deixado por Bradbury: enquanto houver alguém disposto a lembrar, o conhecimento não se perderá. Fofo!
Quem escreveu Fahrenheit 451?
Fahrenheit 451 é uma obra de Ray Bradbury, autor estadunidense nascido em 22 de agosto de 1920 e falecido em 6 de junho de 2021.
Pai de quatro meninas, Bradbury se destacou na escrita de textos de ficção científica, mas também escreveu outros gêneros. Inclusive, uma outra obra bastante famosa dele é Crônicas Marcianas, um livro de contos que conta a história de humanos que tentam colonizar Marte.
Bradbury deu vida à Fahrenheit 451 em um contexto de pós-Segunda Guerra Mundial, instauração da Guerra Fria e estabelecimento da televisão como meio de comunicação de massa, ou seja, em um tempo que vivia as consequências da ascensão de regimes totalitários, bem como que experimentava a televisão como forma majoritária de obtenção de informação e entretenimento.
Há ainda algo que preciso dizer: se você está achando que vai encontrar uma crítica à censura, você pode estar enganado(a). A grande crítica de Bradbury na obra (e ele confirmou isso em entrevistas, logo não são vozes da minha cabeça haha) é ao entretenimento vazio e alienante. Ele temia que a TV tomasse o lugar dos livros e as consequências disso.
O que mais chamou atenção em Fahrenheit 451?
Essa é uma pergunta muito pessoal e responderei a isso da forma mais pessoal possível. Então, tá tudo bem você discordar de mim e ter outra opinião, ok?
Várias coisas poderiam ter chamado mais minha atenção no livro: crítica ao entretenimento, bombeiros queimando livros, pessoas dispostas a decorarem livros para que estes não se perdessem, etc. Mas sabe o que chamou mais a minha atenção? O tratamento dado às personagens femininas na obra.
É MUITO DECEPCIONANTE!
Bem, é complexo falar que a obra de Bradbury é misógina porque corro o risco de ser totalmente anacrônica (e não quero fazer isso), mas posso dizer, COM CERTEZA, que ele tinha uma visão limitada sobre o feminino para a época dele, sim, e que há trechos problemáticos na obra dele em torno disso também.
Está em Mildred e suas amigas a representação mais forte do que são pessoas alienadas e fúteis. As duas únicas mulheres que fogem a esse padrão têm arcos na narrativa muito curtos e finais trágicos (Clarisse e a mulher que decide queimar com os próprios livros).
Além disso, há uma parte em que Montag agride fisicamente Mildreld (!!!) e isso não é problematizado na obra. Sem falar na discussão que Montag tem com a amiga de Mildred (sra. Bowles) em que ele faz acusações bizarras (para não chamar de misóginas) contra ela, questionando-a pelos seus divórcios, pelo fato de os filhos não gostarem dela, por ela ter feito cesarianas (!!!), etc. Por fim, ele termina o arroubo mandando-a para casa, o que não deixa de ser simbólico ao querer definir o lugar esperado para uma mulher, e faz uma ameaça de agredi-la caso ela não saia.
— Vá para casa. — Montag fixou os olhos nela, calmo. — Vá para casa e pense no seu primeiro marido, de quem se divorciou, e no seu segundo marido, morto num acidente de carro, e no seu terceiro marido, prestes a estourar os miolos. Vá para casa e pense nos dez abortos que você fez, vá para casa e pense nisso e, também, nas suas malditas cesarianas e nos filhos que sentem ódio mortal de você! Vá para casa e pense como tudo isso aconteceu e no que você fez para pôr um fim nisso. Vá para casa, vá para casa! — gritou ele. — Antes que eu lhe bata e a expulse daqui a pontapés!
Talvez você possa contra-argumentar dizendo que é um cenário extremo, então coisas extremas acontecem. Pois eu digo que, quando se há consciência de certas questões sociais, todos podem fazer escolhas. E Bradbury fez as deles, o que me sinaliza um tipo de visão de mundo.
Vale dizer que algumas discussões sobre direitos das mulheres já existiam naquela época (não como hoje, claro, mas já existiam). Bradbury era um intelectual e alguém que se colocava como à frente do seu tempo e crítico da sociedade em que estava inserido, logo ele é indesculpável para mim. ☹
Inclusive, eu não sou a primeira a fazer esse tipo de questionamento. Ele recebeu vários retornos sinalizando a falta de representatividade da obra com relação a minorias e papéis femininos. Sabe o que ele respondeu?
Como reagi a tudo isso?
“Queimando” o lote inteiro.
Enviando bilhetinhos de rejeição a todos eles.
Despachando o conjunto de idiotas para os quintos dos infernos.
O sentido é óbvio. Existe mais de uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos.
Não pare agora... Tem mais depois da publicidade ;)Cada minoria, seja ela batista, unitarista; irlandesa, italiana, octogenária, zen-budista; sionista, adventista-do-sétimo-dia; feminista, republicana; homossexual, do evangelho-quadrangular, acha que tem a vontade, o direito e o dever de esparramar o querosene e acender o pavio. Cada editor estúpido que se considera fonte de toda literatura insossa, como um mingau sem gosto, lustra sua guilhotina e mira a nuca de qualquer autor que ouse falar mais alto que um sussurro ou escrever mais que uma rima de jardim de infância.
Você encontra essa fala na Coda (nome dado para uma parte de fechamento do livro, tipo um epílogo), depois do posfácio, na edição da Biblioteca Azul, que foi a que usamos na leitura do clube.
Afinal, nós gostamos?
Você já me ouviu (leu, melhor dizendo) bastante, agora é hora de ouvir todas as mediadoras do Clube do Livro do Brasil Escola:
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Opinião da Nay
Sim, eu gostei. A distopia é um dos meus gêneros preferidos no mundo cinematográfico, e ler esse livro foi um deleite. Temos um mundo perfeito para o gênero: livros são queimados por bombeiros e é ilegal lê-los e portá-los. A sociedade é alienada por programas de TV fúteis e fortemente vigiada pelo governo e um cachorro mecânico com sensor e poder para matar.
Montag, o protagonista, vive nesse contexto e sai do status quo ao conhecer Clarisse, menina questionadora e alegre. Mildred, esposa de Montag, vive em plena cegueira intelectual, envolvida com a TV e outras futilidades.
Ray Bradbury constrói um estereótipo machista ao retratar no livro que Mildred e as amigas são fúteis e Montag é o marido agressivo e que tenta mostrar “a verdade” à esposa. Não dá para “passar pano” aqui: ele literalmente agride a esposa.
Apesar disso, Montag consegue passar a mensagem que é clichê de distopias: para evitar cenários caóticos, é necessário sair do comodismo e ser resistência, mesmo que tenha um preço. Questionar sempre e conhecimento é poder. Nisso, o autor não falha. A grande cereja do bolo da obra Fahrenheit 451 com certeza é a sociedade de homens-livros. É uma ideia genial que haja pessoas sendo livros em um cenário onde esses são ilegais.
De leitura relativamente fácil e bem curto, é um bom livro para quem está há muito tempo longe dos clássicos da literatura e deseja retomar o hábito.
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Opinião da Naty
Eu não gostei, mas reconheço o valor. Gostar, para mim, equivale a dizer que vou sempre pensar com carinho no livro e, em algum momento, lerei novamente por puro prazer e saudosismo. Não é meu sentimento. Às vezes, sinto raiva ao pensar no livro. haha
Dito isso, eu reconheço o valor dessa obra. É um clássico quando a gente pensa em distopias, a premissa é muito criativa, a crítica ao entretenimento alienante continua assustadoramente atual e a ideia dos homens-livro é muito bonita.
Porém, contudo, entretanto, todavia... a forma como Bradbury constrói suas personagens femininas pesou negativamente na minha experiência. Foi um ponto que me pegou bastante do começo ao fim e que eu simplesmente não consegui ignorar. Sorry!
MAAAAS, não deixa de ser uma obra que nos lembra por que os livros importam, é relativamente tranquilo de ler — e poder ser lido por qualquer um (ponto positivo!) — e não deixa de nos suscitar reflexões importantíssimas para os tempos em que vivemos.
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Opinião da Lara
Eu gostei muito de Fahrenheit 451, mas existem muitos aspectos importantes a serem considerados quanto a isso. Para mim, a premissa do livro é incrível e foi, inclusive, o motivo pelo qual decidi lê-lo na primeira vez que tive contato com a obra. Muito me impressionou essa ideia de que os livros são proibidos porque são vistos como ameaças, além do fato de que os bombeiros começam os incêndios que põem fim a esses livros, em vez de serem os responsáveis por apagar todo e qualquer incêndio.
O livro começa muito bem para mim quando temos Clarisse perguntando ao Montag se ele é feliz e, com essa pergunta, fazendo com que ele entre em uma grande crise existencial que faz com ele mude completamente sua perspectiva de vida. Além de impactar Montag, o livro nos impacta. E isso acontece não só em relação à forma como Clarisse o influencia com suas conversas e sua forma de ver o mundo, como também em relação à dimensão do amor aos livros que é retratado na obra. Nisso, Ray Bradbury acerta. O amor aos livros é tão intensamente descrito que uma senhora prefere queimar com eles do que deixar eles para trás em uma das cenas mais impactantes da obra: ao mesmo tempo que isso mexe com Montag, também mexe com nós, leitores, que ficamos tocados com isso.
É justo que Montag queira saber o que está nos livros para provocar reações tão intensas nas pessoas. Porém, não é justo o que acontece na obra quando pensamos no papel que as mulheres ocupam nesse contexto. Nisso, Ray Bradbury erra. É muito problemática a forma como Montag trata Mildred e suas amigas por não terem a mesma visão que ele. Apesar de uma das propostas do livro ser criticar a alienação, a forma como isso acontece na obra apenas em relação às mulheres demonstra uma atitude claramente machista, e isso fica claro na obra.
Para além disso, as distopias sempre me chamam bastante a atenção por nos mostrar uma realidade que, embora em um primeiro momento pareça muito distante da nossa, sempre possui características assustadoramente similares. Isso também acontece em Fahrenheit 451. A minha impressão durante a leitura do livro é de que, quanto mais o tempo passa, mais atual o livro se torna, mais sentido ele faz! E isso porque ele faz grandes críticas à mídia e ao entretenimento, as quais continuam se aplicando à nossa realidade atual no que se refere à internet e às redes sociais, além de que traz aspectos como as "telas" nas paredes que interagem com as pessoas, mais bem compreendidas e visualizadas por nós hoje que vivemos em um contexto de imersão tecnológica e de realidade virtual, e o Sabujo Mecânico, máquina supertecnológica que também é possível de ser mais bem visualizada por nós atualmente em um contexto de ascenção dos robôs.
Esse é um daqueles livros que, na minha opinião, sem dúvidas, vale a pena a leitura! É um grande clássico da literatura mundial, possui uma linguagem acessível e é relativamente curto (apenas 216 páginas). Essa leitura, no entanto, não pode ser feita sem ter um olhar crítico e sem dar uma olhadinha na "coda" (parte final do livro escrita pelo próprio autor; nota final), pois isso pode te surpreender!
Live de fechamento do ciclo de leitura de Fahrenheit 451
Vou deixar aqui para vocês o vídeo da nossa live de encerramento de leitura de Fahrenheit 451 em que a gente comenta sobre a obra e dá nossas impressões. Vale a pena assistir!
Abraçooos!
Créditos da imagem
|1| Wikimedia Commons (reprodução)