Assis Chateaubriand foi um influente empresário brasileiro do século XX que modernizou os meios de comunicação e auxiliou na consolidação da identidade cultural brasileira. Nascido em uma família de classe média na Paraíba, trabalhou inicialmente como advogado e professor, mas tinha preferência pelo ramo do jornalismo. Com o tempo, passou a escrever para jornais e gerir pequenos negócios, fundando os Diários Associados; a partir de então, passou a modernizar os veículos de comunicação a ponto de transformá-los em uma das indústrias mais poderosas do século XX, tornando-se responsável por jornais, revistas, rádios e televisão. Chateaubriand foi também cofundador do Museu de Arte de São Paulo, senador da Paraíba e Maranhão e embaixador do Brasil no Reino Unido.
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Tópicos deste artigo
- 1 - Resumo sobre Assis Chateubriand
- 2 - Quem foi Assis Chateaubriand?
- 3 - Carreira de Assis Chateaubriand
- 4 - Importância de Assis Chateaubriand na história do Brasil
- 5 - Assis Chateaubriand na cultura
- 6 - Morte de Assis Chateaubriand
- 7 - Legado de Assis Chateaubriand
Resumo sobre Assis Chateubriand
- Assis Chateaubriand nasceu em 1892, em Umbuzeiro (PB). De família modesta, viveu uma infância problemática, pois era raquítico, gago e teve uma alfabetização tardia.
- Na juventude, tornou-se fluente em outras línguas e frequentou círculos literários e de poesia. Formou-se em Direito em Recife, onde também lecionou.
- Seu primeiro contato com o jornalismo foi como repórter na Gazeta do Norte, tendo passado anteriormente pela experiência de vendedor e mordomo. O primeiro negócio de sua autoria foi quando comprou O Jornal e o transformou no conglomerado Diários Associados, de onde surgiria a revista O Cruzeiro.
- Ele fundou diversas empresas de comunicação, entre as quais a Rádio Tupi e a TV Tupi – esta, a primeira emissora de televisão da América Latina.
- Em 1947, cofundou o MASP – Museu de Arte de São Paulo.
- Sua influência lhe rendeu os cargos de senador dos estados da Paraíba e Maranhão, além de exercer o cargo de diplomata no Reino Unido.
- A morte de Assis Chateaubriand em 1968 gerou um legado duplo, tanto positivo, por seus pioneirismos, quanto negativo, pelo uso muitas vezes antiético de sua indústria da comunicação.
Quem foi Assis Chateaubriand?
Assis Chateaubriand foi um empresário ligado à posse de meios de comunicação no Brasil a partir da década de 1940, apesar de ter também exercido os ofícios de jornalista, advogado, político e mecenas. Ele é especialmente reconhecido por ter criado o conglomerado Diários Associados, em 1924, cofundado o Museu de Arte de São Paulo (MASP), em 1947, e instituído a TV Tupi, em 1950.
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Nascimento
Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo nasceu na cidade de Umbuzeiro, Paraíba, em 4 de outubro de 1892. Filho de Maria Carmem Guedes Gondim e Francisco José Bandeira de Melo, Assis foi o segundo filho do casal e teve o nome escolhido em homenagem a São Francisco, cuja data de nascimento coincidia com o dia do santo.
O sobrenome “Chateaubriand” foi incorporado na linhagem sucessória da família de forma curiosa: o avô de Assis, um fazendeiro chamado José Bandeira de Melo, comprou uma escola e a batizou de François René Chateaubriand em homenagem ao escritor francês de mesmo nome. Com o tempo, o proprietário da escola passou a ser popularmente chamado de “José do Chateaubriand” e, mais tarde, apenas “José Chateaubriand”, em referência à instituição sob sua posse; consequentemente, o primeiro filho de José passou a ser referenciado informalmente como Francisco José Chateaubriand.
Quando o segundo filho de José nasceu, batizá-lo oficialmente com o sobrenome do francês pareceu lógico, já que o “Chateaubriand” já estava incorporado inseparavelmente à família do fazendeiro. Considerando a escolha do pai, Francisco também registrou os seus filhos com o sobrenome do escritor.
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Infância
O pai de Assis Chateaubriand, no ofício de juiz, mudou-se com a família para a cidade de Ingá, próxima de Umbuzeiro, pouco depois de Assis completar um ano de idade. Três anos mais tarde, Francisco recebeu o convite para uma cadeira de deputado federal, mas recusou o cargo, recomendando o irmão em seu lugar. Mudaram-se, dessa vez, para uma chácara próxima de Recife.
Além do primogênito, Jorge, e o segundo filho, Assis, o casal teve ali mais dois filhos, Oswaldo e Urbano. O pai agora criava vacas e vendia leite, mas nunca faltou alimento às crianças; a modéstia também não impediu os quatro irmãos de serem criados com os costumes intelectuais da família, que organizava saraus musicais e noites de poesia.
Mas enquanto os irmãos cresciam saudáveis e brincavam o dia todo, Assis dependia do constante cuidado da mãe; além de gago, era raquítico e tomava diversos tipos de tônicos que não surtiam efeito. Quando foi admitido na escola, aos seis anos de idade, sofreu o deboche dos colegas devido à gagueira e passou a ter crises de pânico; diante da saúde frágil do menino, os pais decidiram tentar alfabetizá-lo em casa. O processo se mostrou também problemático, pois Assis não conseguia compreender as letras.
Uma aprovação para o cargo de conferente de alfândega em Belém do Pará levou o pai, Francisco, a decidir que seria melhor para Assis passar um tempo com o avô materno, Urbano Gondim. O médico da família julgava que uma vida sem luxos encorajaria o jovem Chateaubriand a superar a gagueira.
De fato, ao conviver com o avô na cidade pernambucana de Timbaúba, Assis parecia mais à vontade, criando amizades com outros meninos de classe social mais baixa; ainda não aprendera a ler e a escrever, mas havia começado a socializar, pela primeira vez, com algum sucesso. No entanto, o feito foi incentivado pelo avô de maneira rígida, que repreendera Assis por suas dificuldades mais ou menos com estas palavras: “Gagueira é vergonha. Quanto mais vergonha de falar você tiver, mais gago você vai ficando. O único jeito de curar isso é falar sozinho. Falar até cansar, até secar a saliva, mas sozinho. De hoje em diante você vai passar algumas horas do dia sentado na pedra Preta, na beira do rio, falando consigo mesmo. Se isso não o curar, pode desistir que é porque Deus quis que você ficasse desse jeito para o resto da vida”.|1|
Próximo dos dez anos de idade, Assis Chateaubriand voltou da “vida selvagem” para os pais, agora curado da gagueira; também passou a compreender as práticas de leitura e escrita com imensa fluidez, inclusive um pouco da língua francesa. Aos doze, estava oficialmente alfabetizado, saindo das estatísticas de 30% dos brasileiros analfabetos daquele período.
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Juventude
Assis Chateaubriand passou parte da juventude em uma pensão em Recife, cujo influente dono, Pessoa de Queiroz, apresentava-lhe a importantes pessoas da sociedade paraibana. Enquanto o desempenho de Assis na educação formal era medíocre, tornou-se um leitor assíduo de jornais e passou a frequentar grupos de literatura e poesia com pessoas muito mais experientes daquele meio. Nessa época, também aprendeu as primeiras noções sobre a língua alemã.
Ao início da adolescência, foi vendedor em um armazém de tecidos e mordomo no casarão de uma influente matriarca milionária, Ana Louise, que percebeu a sua inclinação intelectual e ouviu o pedido do rapaz em recomendá-lo para trabalhar em um dos jornais da cidade. Assim, aos quinze anos, foi admitido na Gazeta do Norte, um jornal recém-fundado de perfil contraditório (ora crítico às oligarquias, ora apologético às elites conservadoras) no qual Assis foi testado como publicitário, mas acabou exercendo oficialmente o cargo de jornalista.
Mas após cerca de um ano de circulação, a gazeta foi fechada e Assis passou a receber, novamente, auxílio financeiro do pai, ao menos até que encontrasse outro emprego. Utilizou-se do tempo ocioso para estudar, aproximando-se com afinco da filosofia e da língua alemã, da qual se tornou fluente. Ingressou na Faculdade de Direito de Recife em 1908, aos dezessete anos, e aceitou o cargo de aprendiz de repórter em O Pernambuco, cujo cargo lhe oferecia apenas meio salário. Entre os estudos e o trabalho, frequentava festas entre os jovens colegas, mas sem manter a personalidade recatada — não fumava e bebia, de vez em quando, uma taça de vinho.
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Casamento
Oficialmente, o único casamento de Assis de Chateaubriand foi em 1924 com Maria Henriquetta Barrozo do Amaral. Antes disso estivera noivo da francesa Jeanne Paulette Allard – o segundo noivado frustrado na juventude. O primeiro havia sido com Maria da Penha Lins de Barros Guimarães, a “Poli”, no ano de 1916, que foi rompido quando Assis foi convocado para lecionar Direito no Rio de Janeiro. Ele se casou com Maria Henriquetta enquanto ainda era noivo de Jeanne.
No início da década de 1930, Maria e Assis se separaram por meio do desquite, já que, naquele período, não havia ainda a possibilidade de solicitar divórcio. Pouco tempo depois, aos 41 anos, criou uma obsessão por Cora Celina Acuña, ou “Corita”, uma jovem de 15 anos que nascera na Argentina e construía uma carreira como atriz de cinema no Brasil. Apesar de se unirem em 1934, desenvolveram um relacionamento conturbado, que Assis conduziu de maneira patologicamente obsessiva, resultando na fuga de Corita após oito anos juntos.
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Filhos
Assis de Chateaubriand teve três filhos: Gilberto Francisco (1925), com Jeanne Allard; Fernando Antônio (1927), com Maria Henriquetta; e Teresa (1934), com Cora.
Os três filhos tomaram rumos profissionais distintos: Gilberto consolidou-se como diplomata do Itamaraty na Europa e bem-sucedido colecionador de obras de arte; Fernando, a exemplo do pai, seguiu o caminho da comunicação, tornando-se diretor-geral da TV Tupi e diretor de redação da revista O Cruzeiro (ambas fundadas por Assis); quanto à Teresa, pouco se sabe, principalmente devido à desatenção dada pela sociedade em relação às mulheres naquele período. Sabe-se com certeza, apenas, que ela se casou com um médico e se manteve afastada da vida pública.
Carreira de Assis Chateaubriand
Conforme já informamos na subseção “juventude”, Assis de Chateaubriand trabalhou em ofícios variados, muitos dos quais eram apenas “bicos” ou atividades passageiras: foi atacadista, copeiro, jornalista e aprendiz de repórter.
Cerca de dois anos após se formar no curso de Direito, aos 23, passou a lecionar Direito Romano na própria instituição filiada. Em 1917, mudou-se para o Rio de Janeiro — ocasião em que pôs fim ao relacionamento com “Poli” — mas, ironicamente, ele nunca atuou como professor de Direito na capital (por razões que ainda não são muito bem compreendidas). Ao invés disso, foi convocado por Ana Louise, sua antiga patroa, para defendê-la na corte federal e, aproveitando-se do cenário carioca, acabou sendo admitido como colaborador do Correio da Manhã. A partir de então, sua ascensão profissional parecia imparável.
Em 1924, acumulou dinheiro suficiente para se tornar um pequeno empresário da capital: comprou O Jornal, que transformou em Diários Associados; quatro anos depois, fundou a influente revista O Cruzeiro; no ano de 1935, anunciava a estreia da Rádio Tupi; em 1947, voltou-se a investimentos além da capital, onde cofundou, com Pietro Maria Bardi, o Museu de Arte de São Paulo (MASP), e, em 1950, inaugurou a primeira emissora de televisão de toda a América Latina: a TV Tupi, primeiramente em São Paulo e, no ano seguinte, no Rio de Janeiro.
Mesmo transformado em um magnata dos meios de comunicação brasileiros, Assis de Chateaubriand se arriscou na carreira política: foi senador do estado da Paraíba (1952-1955) e do Maranhão (1955-1957), consolidando-se como embaixador do Brasil no Reino Unido entre 1957 e 1960 por encargo do presidente da República Juscelino Kubitschek.
No ano de 1954, ele também ocupou a cadeira n° 37 da Academia Brasileira de Letras, substituindo o lugar do recém-falecido presidente da República, Getúlio Vargas.
Importância de Assis Chateaubriand na história do Brasil
Assis Chateaubriand, apesar das controvérsias no exercício de sua influente carreira, como veremos mais adiante, contribuiu para a formação da identidade brasileira do século XX. Sua fortuna e influência garantiram a fundação de uma das instituições culturais mais importantes do país e também a consolidação de uma indústria moderna de comunicação: entre suas principais colaborações, podem-se citar:
o Museu de Arte de São Paulo (MASP), que recebeu obras de artistas consagrados da história tanto europeia quanto brasileira;
a fundação de uma indústria jornalística moderna, que garantiu a impressão e circulação de revistas e jornais de maneira abrangente, financiada pela publicidade (a exemplo da revista O Cruzeiro); e
o pioneirismo da comunicação audiovisual na América Latina por meio da TV Tupi, que permaneceu no ar por quase trinta anos.
Assis Chateaubriand na cultura
Veja a seguir alguns dos maiores exemplos de representações de Assis Chateaubriand na cultura:
→ Chatô: O Rei do Brasil (filme, 2015): o longa-metragem que dividiu a opinião dos espectadores procura seguir a história do magnata de maneira semelhante ao livro biográfico homônimo, lançado originalmente em 1994 por Fernando Morais, narrando tanto sua vida amorosa quanto profissional. Disponível em diversas plataformas de streaming.
→ Chatô e os Diários Associados – 100 anos de paixão (teatro, 2025): em formato de musical, essa peça aborda a carreira de Chateaubriand e conta com outras personalidades notáveis da indústria cultural brasileira, como Carmen Miranda, Hebe Camargo e Lolita Rodrigues. O musical também possui influência direta da biografia escrita por Fernando Morais.
→ Chateaubriand: Cabeça de Paraíba (curta-metragem, 2000): o filme de poucos minutos dirigido por Marcos Marins foi exibido em quinze festivais e mostras brasileiras e internacionais, enfatizando desde a história da inauguração da TV Tupi até a queda de seu império milionário.
→ Chateaubriand (documentário, 2008): Também dirigido por Marcos Marins, o documentário narra a história de “Chatô” por meio de depoimentos de pessoas que o conheceram mais de perto, como a enfermeira que cuidou do magnata em seus últimos anos de vida.
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Morte de Assis Chateaubriand
Assis Chateaubriand morreu em São Paulo, em 4 de abril de 1968, aos 75 anos de idade. Após o derrame sofrido em 1960, sua saúde ficou cada vez mais debilitada, levando-o à paraplegia e graves problemas de fala. Ao sofrer uma trombose mesentérica (que interrompe a circulação sanguínea no intestino), foi levado a uma cirurgia de emergência quando sofreu uma hemorragia fatal. O corpo foi enterrado no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.
Legado de Assis Chateaubriand
Apesar dos métodos questionáveis de uso do poder, Assis Chateaubriand foi essencial para a construção da identidade brasileira de meados do século XX. Um de seus maiores legados foi a fundação do Museu de Arte de São Paulo junto de Pietro Maria Bardi, onde dedicou um acervo de primeira categoria, incluindo a exibição de obras de Vincent van Gogh, Rafael Sanzio, Tarsila do Amaral, Pablo Picasso, Claude Monet, Cândido Portinari, Franz Post, Emílio Di Cavalcanti, entre outros.
O seu pioneirismo na televisão latino-americana foi igualmente importante, abrangendo a indústria da comunicação e permitindo o acesso popular à mídia audiovisual no país. O jornalismo impresso também foi influenciado, pois Chateaubriand transformou a reportagem em uma indústria rentável de amplo acesso, incentivado pelo uso da publicidade e propaganda — não coincidentemente, é possível que a revista mais importante do Brasil do século XX tenha sido O Cruzeiro, de sua fundação.
A consolidação desse império, no entanto, transformou a história do país também de maneira questionável. Entre as décadas de 1940 e 1960, utilizou-se da propaganda para atacar Getúlio Vargas, contribuindo com a crise política que levaria a seu suicídio; defendeu o imperialismo português na África; e incentivou o Golpe de 1964 para proteger seus interesses particulares. Isso sem mencionar episódios específicos, como na ocasião em que mandou pistoleiros caparem um credor ou quando difamou um bispo, acusando-o de estupro, porque o religioso havia criticado os seus jornais. A sua influência e sua riqueza, no entanto, livraram-no da justiça.
O acúmulo de reportagens predatórias e frequentemente antiéticas, consequentemente, distanciava-se de um dos conceitos fundamentais do jornalismo profissional: a informação imparcial. O legado deixado por Chateaubriand serve também para nos lembrar que a mídia audiovisual, por se tratar de uma indústria atualmente bilionária, continua sendo uma das ferramentas mais poderosas — e perigosas — na formação de opiniões.
Créditos da imagem
[1] Thiago Domingues Vieira / Shutterstock
Notas
|1| Apud MORAIS, Fernando. Chatô: o rei do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
Fontes:
ABI. Assis Chateaubriand na tela do Cine ABI, 2008. Associação Brasileira de Imprensa. Disponível em <https://www.abi.org.br/assis-chateaubriand-na-tela-do-cine-abi/>.
CPDOC. Chateaubriand, Assis (verbete), s.d. Disponível em <https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/CHATEAUBRIAND,%20Assis.pdf>.
MORAIS, Fernando. Chatô: o rei do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
MUSEU DE ARTE DE SÃO PAULO. Acervo, s.d. Disponível em: <https://masp.org.br/acervo>.
NOSSO SÉCULO: 1945/1960. Memória fotográfica do Brasil no século 20. São Paulo: Abril Cultural, 1980.
RUSSO, Francisco. Chatô – O Rei do Brasil, s.d. Adoro Cinema. Disponível em <https://www.adorocinema.com/filmes/filme-210247/criticas-adorocinema/>.
SECRETARIA DE CULTURA E EDUCAÇÃO CRIATIVA. Teatro João Caetano recebe “Chatô e os Diários Associados – 100 Anos de uma Paixão, s.d. Governo do Estado de Rio de Janeiro. Disponível em: <https://www.rj.gov.br/funarj/node/386>.