Calígula é como ficou conhecido o imperador Caio César Germânico, que liderou o governo de Roma entre os anos 37 a.C. e 41 d.C. O seu breve período de poder, apesar de ser marcado por diversas manobras populares, foi o suficiente para que se criassem mitos depreciativos em relação à sua personalidade, incentivados por motivos políticos. Com isso, por mais de dois milênios, Calígula se tornou reconhecido como um dos imperadores mais malignos e controversos do período do Império Romano.
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Tópicos deste artigo
- 1 - Resumo sobre Calígula
- 2 - Quem foi Calígula?
- 3 - Calígula como imperador romano
- 4 - Doença de Calígula
- 5 - Como Calígula morreu?
- 6 - Calígula na cultura popular
- 7 - Curiosidades sobre Calígula
Resumo sobre Calígula
- Caio César Germânico era filho de um influente general romano e recebeu o apelido de Calígula ainda criança, devido ao costume de usar sandálias do tipo militar (as cáligas).
- Em sua juventude, Caio César testemunhou a crueldade do impopular imperador Tibério, com quem foi forçado a conviver após a perda da família.
- Após a morte de Tibério, Calígula ascendeu ao trono do Império Romano devido à sua popularidade entre as elites militares.
- O início de seu governo foi marcado por medidas que agradaram à população do Império, como a redução dos impostos e a libertação de presos políticos. Acometido por uma doença (possivelmente epilepsia ou encefalite), contemporâneos de Calígula afirmaram que ele teve a personalidade afetada, tornando-se “louco”.
- Muitas fontes da época apontam Calígula como louco, depravado, sanguinário, entre outros adjetivos; no entanto, muitas dessas acusações eram possivelmente exageradas para fins políticos.
- A súbita impopularidade de Calígula entre as elites motivou membros da Guarda Pretoriana a assassiná-lo em seu palácio, dando-se início a um confronto entre militares.
- No lugar de Calígula, os pretorianos exigiram a nomeação de Cláudio, tio de Calígula, como imperador de Roma.
- O imaginário acerca da “loucura” de Calígula foi reforçado pela cultura popular, com destaque ao filme “Calígula”, de 1979.
Quem foi Calígula?
Calígula foi o apelido do imperador romano Caio César Germânico, que governou Roma entre os anos 37 e 41 d.C. como terceiro líder da dinastia júlio-claudiana, também a primeira família no poder desde o advento do período do Império Romano (27-476 d.C.).
Bisneto de Otávio Augusto e filho do general Germanicus com Agrippina, a Velha, diz-se que Caio César tornou-se querido por onde viajava em companhia dos pais. Foram nessas viagens que recebeu o apelido de Calígula. É possível que, por usar pequenas sandálias de modelo militar — as cáligas —, os soldados do general Germanicus tenham lhe alcunhado com o nome diminutivo daquele tipo de calçado.
Naquele período, o imperador Tibério havia iniciado uma violenta perseguição política a seus opositores, resultando em julgamentos e assassinatos por traição. Entre os alvos, encontravam-se a mãe e dois irmãos mais velhos de Calígula, que foram exilados na ilha de Pandatária, onde morreram de fome. O pai morreu de causas incertas, aos 34 anos de idade.
Enquanto isso, o próprio Calígula, como sobrinho-neto do imperador vigente, foi forçado a passar a juventude ao lado do sádico Tibério, durante seu governo em exílio na ilha de Capri. Lá, testemunhou uma rotina decadente de torturas, estupros e execuções; aos 77 anos, Tibério, pouco antes de sua morte, atestou suas heranças para o neto Tibério Gemelo e Calígula, apesar de não deixar claro quem o sucederia no poder do império.
A morte de Tibério foi comemorada pela população romana, aliviada com o fim de uma era de perseguições e decadência. No entanto, a sucessão ao trono ainda era incerta, com Calígula e Tibério Gemelo como possíveis candidatos.
Calígula como imperador romano
Calígula, por inúmeras razões, era o sucessor preferido ao poder do Império Romano: na questão de popularidade, ele foi querido desde a infância pelas legiões romanas; seu pai havia sido um renomado general e sua família havia sido vítima das paranoias de Tibério, algo que se tornou pretexto demagógico para que ele adquirisse vantagem entre o povo.
Além disso, o seu rival, Tibério Gemelo, era mais jovem (com 17 anos à época) que Calígula. Estima-se também que os anos vividos ao lado do perseguidor de sua família tenham lhe dado uma feição dissimuladora, o que lhe concedeu uma personalidade aparentemente inofensiva às elites que apoiaram Tibério em outrora; ou seja, em comparação ao neto do ex-imperador, Calígula parecia muito mais manipulável.
Por essas razões, entre outras, Calígula tornou-se também preferido pelo Senado, que viu nele a oportunidade de reestabelecer em Roma o status honrado de seu pai, o general Germanicus. A pressão militar levou o Senado a sufocar qualquer brecha na ascensão ao poder de Tibério Gemelo, invalidando o testamento destinado à sua figura. Com isso, o caminho para o poder absoluto estava em aberto para Calígula.
Com 24 anos de idade, Calígula foi nomeado imperador de Roma. A grande expectativa do povo lhe angariou o renome de “Novo Augusto”, esperando-se a retomada do ponto mais alto da história do império. Suas primeiras medidas foram altamente populares: reduziu impostos, promoveu a liberdade de expressão, libertou prisioneiros perseguidos por Tibério e forjou a queima de documentos incriminatórios do governo anterior (embora, mais tarde, tenha-se descoberto que tais documentos destruídos eram falsos, enquanto os verdadeiros mantiveram-se intactos).
Crítico ao governo dos senadores, nomeou ex-escravos auxiliares políticos e permitiu a denúncia dos escravos sobre seus senhores. Atribuem-se a ele, também, a construção de extravagantes aquedutos e a ampliação do Palácio Tiberiano, no Monte Palatino, onde residiu em maior parte.
No entanto, em seus poucos anos de liderança, Calígula se tornou historicamente reconhecido por ser perverso, maligno, psicopata, depravado, megalomaníaco, sanguinário, entre outros adjetivos negativos. Dizia-se que abusou de suas irmãs, gastou o tesouro de Roma em excessivas festas, banquetes e orgias, convocou soldados honrados para uma suposta batalha (quando, por fim, obrigou-os apenas a catar conchas na praia) e até mesmo ameaçou nomear o seu cavalo favorito, Incitatus, para a posição de cônsul romano.
No decorrer de dois milênios desde a sua história, a criação de um imaginário controverso sobre Calígula é, possivelmente, um mito construído por seus contemporâneos, como Suetônio e Dião Cássio, encorajados a agradarem os rivais políticos do imperador. Mais recentemente, as afirmações de que ele teria sido um imperador sem escrúpulos se tornaram bastante duvidosas.
Conforme aponta a historiadora Marina Regis Cavicchioli, a loucura atribuída a Calígula é “objeto de discussão entre seus biógrafos [...]. Em sua biografia de Calígula, Suetônio conta que, no início de seu governo, o imperador foi apreciado por seu povo [...], porém, em seguida, descreve-o como monstro, alcunha que se perpetuará ao longo dos séculos”.|1|
Apesar das incertezas que envolvem a personalidade de Calígula, não podemos deixar de supor que o seu governo se tornou, de fato, impopular e ditatorial com o passar dos meses no poder; ao mesmo tempo, devemos desconfiar que as críticas que transformaram Calígula no símbolo da decadência moral de um imperador construíram-se como reflexo de seu governo autocrático, malvisto em sua época por desafiar o convencional sistema senatorial.
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Doença de Calígula
Como Calígula morreu?
Em 41 d.C., durante um dia de sessões de jogos e peças de teatro no interior do Palácio Tiberiano, Calígula foi emboscado por três soldados da Guarda Pretoriana, que trancaram as portas do corredor em que o imperador passava e o apunhalaram até a morte. Depois, mataram sua esposa e filha pequena. Um dos assassinos e líder da emboscada foi Cássio Quereia, um dos agentes pessoais de Calígula, que se dizia ser constantemente humilhado em público pelo imperador por seus “modos afeminados”.
Seguiu-se ao assassinato um conflito entre a Guarda Pretoriana e a guarda germânica de Calígula; todos os suspeitos de envolvimento na emboscada foram sumariamente mortos, inclusive civis. Mas como a Guarda Pretoriana havia se tornado uma instituição influente do Império Romano, rapidamente nomearam um sucessor a Calígula que atendesse aos interesses das elites: Cláudio, tio do imperador assassinado.
O senado se mostrou ineficiente perante a imposição dos militares, refletindo a crise dos resquícios da República. O assassinato significava mais que uma simples rixa pessoal; muitos senadores e militares, incentivados também pelas lendas depreciativas que se criaram acerca de Calígula, apoiaram o seu fim devido às suas ações aplicadas contra as elites romanas.
Calígula na cultura popular
O reconhecimento de Calígula como uma das figuras mais perversas do Império Romano ressoou em diversos produtos da cultura popular, entre filmes, séries e peças de teatro. Observe a seguir alguns dos títulos mais populares (infelizmente, nos games, ele nunca teve uma representação que valha a pena comentar...).
- Calígula (1979, filme): é provável que muito do imaginário perverso do imperador Calígula tenha sido disseminado por esse clássico ítalo-estadunidense estrelado por Malcolm John Taylor. Devido às diversas cenas de sexo explícito, o filme foi mal recebido na época da estreia, recebendo versões censuradas por todo o mundo (inclusive no Brasil). Atualmente, é considerado um cult de drama histórico e recebeu uma versão repaginada e remasterizada em 2024 (“Calígula: O Corte Final”).
- Império Romano: Calígula – O Imperador Louco (2016-2019, série): a terceira e última temporada da série documental “Império Romano” exibida pela Netflix é dedicada totalmente a Calígula, enfatizando os episódios mais notórios e escandalosos do imperador. A ambientação, figurino e atuações enriquecem a experiência da trama, que procura se ater no conteúdo dramático do período.
- Calígula (1944, peça teatral): nesse drama escrito pelo escritor e filósofo Albert Camus, Calígula é representado como uma figura angustiada em decorrência da irmã e amante, Drusilla. A obra apresenta as desilusões da existência por parte do imperador, que se torna cada vez mais perturbado em sua procura pelo prazer de viver.
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Curiosidades sobre Calígula
- Para a sociedade romana da época, o assassinato de Calígula foi tão escandaloso quanto o de Júlio César (44 a.C.).
- De acordo com Suetônio, o cavalo preferido de Calígula, Incitatus, tinha quase vinte criados e dormia em meio a mantas imperiais, além de ser homenageado com uma estátua de mármore em tamanho real.
- Diz-se que Calígula procurou ser associado a um deus, ordenando a construção de um templo no Monte Palatino com direito a cultos oficiais e um colégio de sacerdotes. Ele ordenou a construção de uma estátua sua no interior do Templo de Jerusalém para provocar as comunidades judaicas, embora o governador da Síria tenha conseguido sabotar o plano.
- Calígula possivelmente odiava o seu apelido, preferindo ser referenciado pelo nome, Gaio César. Suetônio escreveu que o imperador acusava de injúria grave quem assim se referisse a ele.
- Atribui-se à “loucura” de Calígula o seu gosto por assistir a pessoas sendo torturadas ou executadas durante os banquetes.
- Uma lenda atribuída ao imperador diz que, certa vez, ele convocou três senadores influentes para um de seus banquetes e os obrigou a revezar nos papéis de servo, dançarino e gladiador.
- Outro fato que associa Calígula à loucura foi o episódio em que supostamente ordenou a construção de uma ponte de três quilômetros, formadas por navios, para atravessar a Baía de Nápoles. O motivo era para provar à população que ele conseguia navegar sobre o mar.
- Há um gênero de mariposas chamada Caligula, apesar de a referência ao imperador não ser clara.
Notas
|1| CAVICHIOLLI, Marina R. O incesto e o monstro: uma construção da memória do Imperador Calígula. História (São Paulo). São Paulo: UNESP, v.39, n.3, 2020.
Créditos da imagem
[1] Classical Numismatic Group, Inc / Wikimedia Commons (reprodução)
Fontes
BARLAG, Phillip. Evil Roman Emperors: The Shocking History of Ancient Rome’s Most Wicked Rullers from Caligula to Nero and More. Lanham: Prometheus, 2021.
BEARD, Mary. S.Q.P.R.: uma história da Roma Antiga. São Paulo: Planeta, 2017.
BORNECQUE, Henri; MORNET, Daniel. Roma e os romanos. São Paulo: EPU, 1976.
CAVICHIOLLI, Marina R. O incesto e o monstro: uma construção da memória do Imperador Calígula. História (São Paulo). São Paulo: UNESP, v.39, n.3, 2020.
WINTERLING, Aloys. Caligula: A Biography. Berkeley: California University Press, 2011.